sábado, 15 de maio de 2010

MOITA FLORES PRESIDENTE DA CAMARA DE SANTARÉM

A ser verdade, honra lhe seja feita

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Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o
Banco Alimentar contra a Fome.

Quando tomei posse como presidente da Câmara de Santarém fui
confrontado com a quantidade de prendas que chegavam ao meu gabinete.
Era a véspera de Natal. Para um velho polícia, desconfiado e vivido, a
hecatombe de presuntos, leitões, garrafas de vinho muito caro, cabazes
luxuosos e dezenas de bolos-rei cheirou-me a esturro. Também chegaram
coisas menores. E coisas nobres: recebi vários ramos de flores, a
única prenda que não consigo recusar.

Decidi que todas as prendas seriam distribuídas por instituições de
solidariedade social, com excepção das flores.

No segundo Natal a coisa repetiu-se. E então percebi que as prendas se
distribuíam por três grupos. O primeiro claramente sedutor e manhoso
que oferecia um chouriço para nos pedir um porco. O segundo, menos
provocador, resultava de listas que grandes empresas ligadas a
fornecimento de produtos, mesmo sem relação directa com o município,
que enviam como se quisessem recordar que existem. O terceiro grupo é
aquele que decorre dos afectos, sem valor material mas com significado
simbólico: flores, pequenos objectos sem valor comercial, lembranças
de Natal.

Além de tudo isto, o correio é encharcado com milhares de postais de
boas-festas que instituições públicas e privadas enviam numa escala
inimaginável. Acabei com essa tradição. Não existe tempo para apreciar
um cartão de boas--festas quando se recebe milhares e se expede
milhares.

Quanto às restantes prendas, por não conseguir acabar com o hábito,
alterei-o. Foi enviada nova carta em que informámos que agradecíamos
todas as prendas que enviassem. Porém, pedíamos que fosse em géneros
de longa duração para serem ofertados ao Banco Alimentar contra a
Fome. Teve um duplo efeito: aumentou a quantidade de dádivas que agora
têm um destino merecido. E assim, nos últimos dois Natais recebemos
cerca de 8 toneladas de alimentos.

Conto isto a propósito da proposta drástica que o PS quer levar ao
Parlamento que considera suborno qualquer oferta feita a funcionário
público. Se ao menos lhe pusessem um valor máximo de 20 ou 30 euros,
ainda se compreendia e seria razoável. Em vários países do mundo é
assim. Aqui não. Quer passar-se do 8 para o 80. O que significa que
nada vai mudar. Por isso, fica já claro que não cumprirei essa lei
enquanto funcionário público. Enquanto autarca aceitarei prendas que
possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar. E jamais devolverei
uma flor que me seja oferecida.

Francisco Moita Flores, Professor Universitário