sábado, 12 de março de 2011

A missão da geração à rasca é empurrar para a rua um povo adormecido


Um movimento espontâneo que ganhou 60 mil adeptos nas redes sociais e que se converteu na revolta de uma geração à rasca pode não ser suficiente para encher esta tarde as avenidas e praças de cidades como Lisboa, Porto, Braga, Faro ou Funchal. Hoje são duas as manifestações que saem à rua, mas enquanto o plenário dos professores marcado para o Campo Pequeno, em Lisboa, tem a retaguarda dos sindicatos, o outro protesto, que começou numa página de Facebook, está por conta própria. Tudo ou nada é o destino desta manifestação, que pelo menos ficará como a primeira em Portugal a dispensar partidos ou federações sindicais para dar forma ao descontentamento de uma geração que contagiou todas as outras.

Há sintomas a anunciar que este lamento poderá atravessar a barreira da internet: "A popularidade da canção dos Deolinda ou dos Homens da Luta mostra que alguma coisa está a mexer", avisa o sociólogo Manuel Villaverde Cabral. E enquanto movimento de ruptura ou de chamada de atenção "já produziu alguns efeitos que podem vir a significar uma corrente de decepção de uma geração", pensa o politólogo António Costa Pinto.

Mas só isso não é garantia de nada. A missão desta geração à rasca é de monta: contrariar a natureza de um povo que se desabituou de protestar, que "não muda de estilo de vida de um dia para o outro ou que pertence a uma geração que enquanto estiver
apoiada pelos papás não sai de casa para gritar", defende Villaverde Cabral. A falta de autonomia pode até ser um motor desencadeador - diz o sociólogo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa -, mas é "demasiado subjectivo" para se saber se terá força suficiente para os empurrar até à rua.

Protesto monstro Gritar na rua é um hábito que se tornou estranho para os portugueses: "Após a consolidação da democracia, o país conheceu a desmobilização cívica, eleitoral ou sindical e tem hoje uma taxa de conflitos sociais baixa em comparação, por exemplo, com França ou Inglaterra", explica António Costa Pinto. A apatia tem um preço alto, avisa D. Januário Torgal Ferreira: "
Os portugueses caíram na descrença, não acreditam em ninguém ou sequer na mudança." 

Apesar de esta crise ser de "profunda miséria", o bispo das Forças Armadas também está descrente na força desta manifestação: "Gostava que fosse um protesto monstro, mas penso que não terá uma grande expressão e seria preciso que os políticos tivessem a inteligência de perceber que a causa da falta de esperança está num modelo de desenvolvimento em que os mais fracos são sempre os primeiros a sofrer."

Pode até ser que a participação em massa nas redes sociais seja mais um indício de que desta vez será diferente, mas opinar, tomar partido e reclamar na net não implica "estar disposto a sair de casa", adverte Costa Pinto. A maior ou menor adesão a uma manifestação depende de muitos factores, esclarece o politólogo do Instituto de Ciências Sociais. Um movimento bem organizado é um determinante: "A contestação sem estruturas sindicais, associativas ou corporativas fortes dificulta os impactos que se pretende ter na rua." Esta geração à rasca tem, no entanto, alguns pontos a seu favor: "A conjuntura política e económica é favorável e o segmento a mobilizar - a juventude - é mais facilmente mobilizável."

Resta saber se será suficiente e ver se chega para contaminar quem está afastado das redes sociais. "Este protesto não tem ligação aos que mais afectados foram por esta crise", defende Villaverde Cabral. Os que passaram a fasquia dos 45 anos, têm baixas qualificações, caíram no desemprego, dormem na periferia e "têm um intenso treino de apertar o cinto", diz o sociólogo.

Não é bem assim, avisa Paula Godinho, antropóloga da Universidade Nova de Lisboa e estudiosa dos movimentos sociais: "O protesto da geração à rasca ganhou força e está agora em todo o lado, seja nos monitores dos computadores, seja nos televisores ou nas páginas dos jornais." Bateu à porta dos universitários com medo do desemprego, entrou em casa dos pais que temem pelo futuro dos filhos e também dos pais que perderam o emprego: "Há também outras gerações que têm casa e contas para pagar. O trunfo desta manifestação é ter uma base multifacetada, que a transformou num protesto transgeracional."

É por "múltiplos descontentamentos" confluírem num único protesto que a geração à rasca tem um desfecho tão imprevisível: "Os prognósticos neste caso são arriscados, pois estamos perante uma contestação que não é convencional." Que nada se parece com o protesto dos professores, em que os sindicatos tomam conta de tudo: "Vão às escolas mobilizar a classe, têm autocarros para os levar e trazê-los de volta e planeiam quase tudo para anular qualquer imprevisto."

A geração à rasca representa também uma espécie de ameaça aos sindicatos e partidos habituados a assumir a liderança, diz a antropóloga: "À medida que a data do protesto se aproxima há mais partidos que não querem ficar de fora." Até porque são os únicos sem nada a perder, diz Paula Godinho: "Se for um fiasco, vão dizer que afinal sem eles era impossível e, se for um sucesso, vão querer reivindicar para si o contributo que quiseram dar."

Todas as dúvidas deixam esta tarde de fazer sentido quando as praças e as avenidas das oito cidades portuguesas estiverem às moscas ou então entregues às multidões. Mas é sobretudo ser uma contestação que escapou ao "controlo de todos" que faz com que a geração à rasca tenha "quase tudo" para se tornar num "marco histórico", defende André Pestana, professor contratado em Oeiras que optou por aderir à convocatória via Facebook, em vez de participar no plenário do Campo Pequeno: "Há muitos como eu que vão a esta manifestação precisamente por não ter essa carga pesada dos dirigentes sindicais ou partidários. Vou a uma demonstração de força e entusiasmo que não precisou de um aparelho nem terá discursos desgastados e bolorentos", remata o coordenador do movimento dos professores 3R - Renovar, Refundar e Rejuvenescer.

tirado  daqui 



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