quarta-feira, 2 de março de 2011

Imprópria para a democracia?


CAIRO - Será que o mundo árabe não está preparado para a liberdade? De acordo com um certo estereótipo, alguns povos - os árabes, os chineses e os africanos - são incompatíveis com a democracia. Muita gente, no mundo inteiro, insiste que o "poder do povo" vai acabar por degenerar num caos ao estilo da Somália ou da guerra civil do Iraque ou numa ditadura à maneira do Irão.

Este discurso tem sido alimentado pelo Ocidente e, o que é mais triste, por alguns líderes árabes, chineses e africanos. Com os movimentos recentes no Médio Oriente, há uma questão politicamente incorrecta que se impõe: os árabes terão maturidade política para a democracia?

Esta preocupação está por trás de grande parte da ansiedade que domina os dirigentes políticos de Washington a Riade. Não podemos negar que os perigos espreitam: tanto a deposição do xá, no Irão, como a de Saddam Hussein, no Iraque, ou a morte de Tito, na Jugoslávia, deram origem a novos regimes repressivos e ao derramamento de sangue. O Congo celebrou a derrota do seu velho ditador em 1997, mas isso desencadeou o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. Se a Líbia se tornar um segundo Congo e o Bahrein um satélite do Irão e o Egipto for dominado pela Irmandade Muçulmana - bem, nessas circunstâncias seria natural que os cidadãos comuns começassem a ansiar pelo regresso dos velhos tiranos.

"Antes da revolução éramos escravos e agora somos escravos de antigos escravos", declarou Lu Xun, o grande escritor chinês, depois do fim da dinastia Qing. Será esse o futuro do Médio Oriente?

Os americanos só dizem banalidades acerca da liberdade. Os defensores da democracia no Médio Oriente têm sofrido pela liberdade torturas inimagináveis - às mãos de ditadores que foram os nossos aliados -, mas mesmo assim persistiram. No Bahrein, os antigos presos políticos contam que as suas mulheres eram arrastadas para a prisão à sua frente e depois diziam-lhes que, caso não confessassem, elas seriam imediatamente violadas. Estes métodos ou outras formas de tortura mais convencionais conseguiram extorquir muitas confissões. Mesmo assim, durante anos, ou mesmo décadas, estes activistas persistiram na sua luta pela democracia. E nós ainda perguntamos se eles estarão maduros para lidar com ela.

O traço comum a todos os movimentos democráticos desencadeados este ano, da Tunísia ao Irão, do Iémen à Líbia, tem sido uma coragem sem limites. Nunca esquecerei um homem que tinha ficado sem as duas pernas, que conheci na Praça Tahrir no Cairo, quando os criminosos a mando de Mubarak atacaram os manifestantes com pedras, bastões e cocktails Molotov. Mesmo assim, este jovem avançou para a linha da frente na sua cadeira de rodas. E nós duvidamos que compreenda o que significa a democracia?

No Bahrein vi homens e mulheres a marchar desarmados em direcção às forças de segurança, sabendo que na véspera as tropas tinham disparado contra os manifestantes com munições verdadeiras. Quem terá coragem de dizer que estas pessoas são imaturas para a democracia?

Não tenho dúvida que haverá escolhos a contornar. Depois da guerra que se seguiu à sua independência, os americanos levaram seis anos a eleger um presidente, e na década de 60 do século XIX o país quase se dividiu em dois. Feitas as contas, o Egipto, a Líbia e o Bahrein estão mais bem posicionados para a democracia do que a Mongólia e a Indonésia pareciam estar nos anos 90 - e a Mongólia e a Indonésia são hoje dois exemplos de sucesso. O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, visitou o Médio Oriente há alguns dias (com os negociantes de armas no seu séquito) e reconheceu sem dissimulação que o Reino Unido apoiou demasiado tempo regimes autoritários com o objectivo de alcançar estabilidade. Reconheceu que o seu país aceitara a ideia feita de que "a democracia não se adapta aos árabes nem aos muçulmanos". E acrescentou: "Do meu ponto de vista, trata-se de um preconceito a que pouco falta para poder ser considerado racista. É ofensivo, imoral, e está pura e simplesmente errado."

No entanto, a ideia continua a ser defendida por muitas ditaduras árabes, em especial pela Arábia Saudita - e, como é evidente, pelos líderes chineses e por praticamente todos os déspotas africanos. É uma pena que nós, ocidentais, sejamos preconceituosos a este ponto, mas ainda é mais triste ver alguns líderes de países em desenvolvimento darem voz aos mesmos preconceitos contra os seus próprios povos.

No século XXI não há alternativas realistas ao poder do povo. O professor William Easterly, da Universidade de Nova Iorque, propõe um padrão de reciprocidade: "Não suporto a autocracia na vossa sociedade se não a desejo para a minha."

Poderia ser o nosso novo ponto de partida. Sinto-me fascinado pela coragem que tenho observado, e só uma atitude paternalista e condescendente permite sugerir que uma pessoa que está pronta a morrer pela democracia pode não estar preparada para ela.

Nicholas Kristof, 
Jornalista 

Exclusivo i/The New York Times