quinta-feira, 4 de junho de 2015

O “Zé do Telhado” de Alvalade




                                                                                                                       
Estávamos no ano de 1935. Em Alvalade, uma boa parte da população tinha sido infectada pelas sezões (paludismo). Num velho casebre, Francisco Lúcio, a mulher e os quatro filhos agoniavam deitados no chão, em esteiras, ardendo de febre e famintos. Havia tempo que nada comiam… Joaquim Algarvio foi visitar a família, e saiu com a alma roída ao ver tanto sofrimento e miséria. Custou-lhe ver aquela família naquele estado, e isso não lhe saia da cabeça. Só pensava no que poderia fazer para ajudar aqueles desgraçados… Tanto pensou e deu voltas à cabeça que acabou por encontrar uma forma de os ajudar. Pela calada da noite abalou direito ao Monte Novo para roubar algumas galinhas. De volta à vila com o “saque”, levou umas quantas aos amigos esfomeados e doentes, e as restantes foi vendê-las ao tio Vieira. Com o dinheiro comprou remédios para a família do Francisco Lúcio. Mas, para sua infelicidade, foi descoberto e denunciado à GNR. No dia seguinte, o Joaquim Algarvio foi preso e levado a pé entre dois guardas a cavalo até Santiago. Ao fim de um mês de prisão, foi julgado. Depois de ouvir as testemunhas de acusação e de defesa, o juiz decidiu e declarou: “O réu roubou e vai ser condenado”. Na sala do tribunal, os seus algozes, que o denunciaram e foram testemunhas de acusação, soltaram um sorriso de satisfação como que dizendo “(…) vais apanhar uns bons anos e servirás de exemplo”.
O juiz continuou a ler a sentença… “(…) vai ser condenado a um mês de prisão.Felizmente já cumprida com a minha admiração pelo acto que praticou, lembrando o Zé do Telhado que roubava aos ricos para dar aos pobres. Vá em paz”.
            
_José do Rosário