quinta-feira, 7 de maio de 2015

Se (É de facto um estranho exemplo)



O estranho exemplo de Passos Coelho


Mariana Mortágua
                    Mariana Mortágua
(Mariana Mortágua, in Jornal de Notícias, 05/05/2015)
Passos Coelho escolheu a inauguração de uma queijaria para marcar o Dia do Trabalhador. Aí, elogiou de forma muito decidida não o esforço dos trabalhadores, mas o dos empresários. Corrijo, elogiou “de uma forma muito amiga e especial” um empresário em concreto. Diz o primeiro-ministro que a história deste “empresário bem-sucedido” é um exemplo para todos quantos “sabem que, se queremos vencer na vida, chegar longe, ter uma economia desenvolvida e pujante, temos de ser exigentes e metódicos”. Um empresário que “viu muitas coisas por esse Mundo fora”, e que nos dá lições importantes ao mostrar que “os ricos não são ricos a esbanjar dinheiro”.
Mas quem é, então, esta conjugação de Steve Jobs com Henry Ford? Dias Loureiro. Compreendo o seu espanto, pois também foi o meu quando vi as imagens, mas é esse mesmo Dias Loureiro. O do BPN que nos custou mais de 5000 milhões de euros. O homem que “viu muitas coisas no Mundo”, de Porto Rico a Marrocos, onde arranjou uns negócios ruinosos (estou a ser simpática na definição…) que acabaram todos a ser pagos pelos contribuintes.
O “metódico” Dias Loureiro que garantiu, na comissão de inquérito ao BPN, que não conhecia um fundo usado pelo BPN nos seus esquemas financeiros, mas que se mostrou dias depois ter assinado vários documentos desse fundo. A mentira, recorde-se, foi um dos motivos que o levou a renunciar do Conselho de Estado, para o qual tinha sido nomeado por Cavaco Silva.
As conclusões do relatório dessa comissão parlamentar, aliás, não deixam muitas margens para dúvidas sobre o modelo de negócio e “exigência” deste “empresário bem-sucedido”. O seu nome e o de Oliveira e Costa são os únicos nomeados para explicar como foi montado o “banco laranja”. “O Grupo desenvolveu-se rapidamente mercê da colaboração objectiva de várias pessoas influentes, em virtude do exercício de altos cargos públicos, designadamente, o Dr. Dias Loureiro e o próprio Dr. Oliveira e Costa, bem como alguns accionistas”.
Sobre Dias Loureiro não há muito mais a dizer, mas as palavras escolhidas por Passos Coelho, na verdade, dizem-nos mais sobre a forma como o primeiro-ministro vê o Mundo, e a relação entre política e negócios, do que sobre um dos responsáveis pelo caso de polícia que foi o BPN. Esperava-se que um empresário com as características elencadas por Passos fosse alguém que tivesse criado empregos bem pagos e desenvolvido a economia do país, não alguém que, à sombra de Oliveira e Costa, ajudou a montar uma espécie de Tecnoforma  gigante. Ou então é isso, é mesmo este modelo de vida, negócio e “vencer na vida” que Passos conhece e admira.