quarta-feira, 11 de março de 2015

"O FIM DO IMPÉRIO E O NASCIMENTO DA NAÇÃO"


                

            1º Capítulo:A Beira à beira do fim

                      Parte 1

O horizonte do fim da guerra


No último dia do ano de 1973, o ministro da Defesa de Portugal, Silva Cunha, ao proferir a mensagem de fim de ano, teve a percepção da gravidade da situação política com que o seu governo se debatia ao enfrentar a guerra nas colónias africanas, especialmente na Guiné-Bissau e em Moçambique. Previa que "no ano que se inicia, a vida, não vai ser fácil. O horizonte aparece carregado de nuvens".

Este mesmo sentimento era partilhado pelo então governador-geral de Moçambique, Engº Pimentel dos Santos, que afirmava num dos seus últimos discursos: "não se poderá esconder ou ignorar que 1974 se apresenta como um ano de crise". Expressão da agonia do regime colonial.
Em Moçambique, no alvor de 1974, a  luta armada estendia-se pelas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Tete e alargava-se rapidamente a Manica e Sofala, rumo ao sul do país. Acresce que nunca a guerra se havia aproximado de um centro urbano da importância da Beira. Para a FRELIMO, com a aproximação da luta a um >>centro estratégico de desdobramento das tropas coloniais, o inimigo tinha sido ferido num dos pontos mais sensíveis e dolorosos<<.
O governador-geral também reconhecia esta realidade: >>de todas as zonas afectadas, é prioritária a de Manica e Sofala.
A Beira era a segunda cidade do país, com sonhos incontidos e confessos de se tornar a capital do futuro, a par de um sentimento de ser preterida em favor da centralidade e do cosmopolitismo da capital. Era como que um corpo estranho num país em formação.
As particularidades desta urbe eram assim relatadas pelo então jornal da terra , o Diário de Moçambique. >>A vida na Beira tem-se processado sempre em moldes um tanto diferentes daqueles que são normais em terras de Moçambique (..). Criou-se uma certa maneira de ser, determinou-se uma personalidade<<.
Uma cidade de características não tardaria a reagir à aproximação da luta armada nas suas imediações. Já não se tratava de relatos verbais de combates num longínquo Norte, ou na mesma  longínqua província de Tete, era ali mesmo às suas portas, afectando o quotidiano da vida da população, sobretudo e das minorias raciais, mais esclarecidas e convictas da imutabilidade e da invencibilidade do sistema. Para a maioria grassava o sentimento de que a independência já não seria uma quimera. Batia apressadamente à porta.

As famigeradas eleições


A construção do mito da "especialidade beirense" aconteceu no ano de 1958, durante a realização das últimas últimas eleições presidenciais do Estado Novo. nelas confrontavam-se o almirante Américo Tomás, proposto pelo partido de Salazar, a União Nacional, e o general Humberto Delgado, candidato-surpresa e arrebatador, apresentado pela oposição democrática. Contra a corrente e por não se terem viciado os resultados da eleição, na Beira venceu o candidato da oposição. Igual resultado só na cidade angolana de Benguela.

Explicar este resultado eleitoral, contraditório aos princípios ideológicos e sociais do núcleo populacional votante, como resultado do sentimento intrínseco de as cidade ser do contra, não basta. Outras razões haverá.
De acordo com o último censo populacional de 1950-1955, a população da Beira era de 47406 indivíduos, dos quais 9983 de raça branca, 206 de <<negros civilizados>> e 31 667 de <<negros não civilizados>>. Na província de Manica e Sofala foram recenseados  5189 eleitores. Votaram 4042 pessoas. 
No domínio das explicações haverá de ter em conta, o descontentamento dos funcionários públicos que viram os seus salários reduzidos. Ciente do descontentamento o Engº Jorge Pereira Jardim, na época presidente da Associação Comercial da Beira, resolveu ir  a Lourenço Marques, demover os governantes dessa dessa  decisão referente aos salários.A  delegação, foi recebida a 16-01-1958 pelo governador-geral Gabriel Teixeira, mas não teve qualquer êxito. O preço foi pago na boca das urnas.

Deus, Pátria e Família e o São Jorge

Uma segunda explicação é a de que a vitória do general Delgado, houve muito empenho do núcleo da oposição democrática, liderada pelo seu mandatário, o jovem advogado António Almeida Santos, ou nas palavras do comandante da polícia da Beira, capitão de Cavalaria, António Dias Machado.

Quem toma a primeira iniciativa da campanha eleitoral é a oposição democrática, realizando uma concorrida sessão de propaganda realizada a 23-5-58, no extinto cine -teatro São Jorge, na Beira. Galvanizados pela oratória e pelo espírito do bota-abaixo, a multidão dedicou-se a um sapateado tal que se pensou que naquela noite a casa ia mesmo desabar.
A União Nacional teria de responder. No dia seguinte, no exíguo cinema Palácio reúnem-se 200 apoiantes numa sessão que, nas palavras do comandante da polícia, foi fraquíssima de assistência e entusiasmo. O núcleo da oposição não perde tempo. distribui panfletos e coloca na vitrina de uma tabacaria um anúncio em que se dizia << Santo António há-de sair>> numa clara alusão a Salazar. O Delegado da União Nacional pede a prisão do dom o governador geral no da tabacaria. O capitão de Cavalaria recusa.
Os receios eram tão sérios que obrigaram o governador-geral a viajar para a Beira, para dirigir uma nova sessão no final da tarde de 1-7-1958.
A defesa da  família foi feita por Alda Almeida, directora e professora do colégio Luís de Camões, frequentado por  filhos difíceis da classe média e por estudantes provenientes dos distritos da zona centro do país.
A defesa da  pátria e da autoridade coube ao Engº Jorge Jardim.  
   
   Em oratória inflamada, contextualizou o momento, buscando o exemplo da França, que se debatia na crise provocada pela guerra da independência da Argélia.
No seu discurso, Jardim não perde a oportunidade para agitar o fantasma da descolonização: << em África vivemos e sabemos que a unidade e autoridade firme são a única possibilidade de mantermos a nossa presença civilizadora. Que o digam, se o pudessem escolher, os franceses da Indochina.
A defesa da fé, coube ao bispo Soares de Resende. Não a faz no cineteatro Palácio, mas reserva-a para as páginas do Diário de Moçambique. Escreve-se: << não está Portugal diante de nenhum sábio, nem de nenhum santo. Mas o que se pode sem hesitação alguma é dizer que pelo menos um dos dois homens é prudente. A vaidade de um foi contrabalançada pela modéstia de outro e (...) um deles mais do que o outro deu mostras claras e públicas do lugar que lhe merecem as coisas sagradas>> E que coisas separavam os dois candidatos?
O almirante Tomás havia-se deslocado ao santuário de Fátima para orar. O general delgado realizou uma manifestação política em Braga, num dia de tradicional procissão religiosa. Pecado sem perdão.
A propósito da campanha, nesta matéria cite-se um artigo de Almeida Santos, publicado no jornal Notícias : <<saberemos sobreviver à maré viva das tendências anticolonialistas, aos fantasmas das federações económicas, esconjurar as tentativas confessas de ingerência nos nossos assuntos internos, na arrumação da nossa querida casa lusitana>>.

A vingança da PIDE

Para os fieis da União Nacional terá sido difícil digerir a sua inesperada derrota na Beira. Jardim, em nota enviada a Salazar, solicita-lhe uma audiência para analisar << o caso da cidade e do distrito da Beira, no valor absoluto dos resultados (...) pois carece de ser ponderado e referido na sua inteira verdades>>. E os resultados da ponderação não se fizeram esperar.

O encarregado de negócios do Governo de Manica e Sofala, inspector Encarnação Vieira, pagou caro a sua honestidade na contagem dos votos. Obviamente foi exonerado.O governador-geral em relatório final escreve para Lisboa que:  A Beira sente-se infeliz.
O alvo principal não podia deixar de ser António de Almeida Santos. A PIDE congemina estratégia legais para o expulsar de Moçambique. A ele juntam-se os advogados Alberto Moreira e William Pott, Carlos Adrião Rodrigues e Henrique Soares de Melo e o empresário Francisco Saraiva Barreto. Todos eles haviam sido participantes activos na campanha eleitoral de Delgado. Intento nunca esquecido mas não conseguido.
O resultado dessas conturbadas eleições presidenciais, num núcleo populacional de pequenas dimensões, conferiram aos beirenses uma aura política que se propagou nos tempos: terem um posicionamento próprio.