sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

É Resistir ao Estado de coma

Desconfio que seja esta a razão: perdemos capacidade de nos indignarmos com as atrocidades que nos impõem. Encolhemos os ombros, suspiramos, condescendemos. "Podia ser pior". Ou então: "Lá estão eles outra vez". Os anos da troika induziram-nos num coma. Tolheram-nos a vontade de sonhar, mas amarraram-nos também os membros. Mais um imposto - verde, negro ou de outra matiz -, nova ceifada nas pensões, menos direitos, mais precariedade. Fome. Mais fome. Tem de ser, disseram-nos.
Em parte, foi verdade. O fantasma da nação exangue assomava todos os dias à janela. Empobrecemos como nos pediram. Castigo. Porque andávamos a gastar que nem uns doidos. O BES caiu porque esteve demasiado exposto ao GES. Os portugueses caíram porque estavam demasiado expostos a Portugal.
2014 marcou o adeus à austeridade industrial. O fim da presença da troika não foi, porém, uma linha que existia e se apagou. Não se percebe com nitidez o antes e o depois. 2015 será ainda de joelhos, a penar, embora com a cabeça mais erguida. A economia arrebita, o consumo desperta, mas prevê-se que, no essencial, o resultado final das diferentes equações subsista por tratar: as pessoas.
Partimos para 2015 ansiosos que chegue 2016. Teremos conseguido sair disto? Há boas notícias que nos fazem falta, mas que não temos: as filas da pobreza envergonhada não encolhem; o valor do nosso trabalho não cresce; o nosso orgulho coletivo dilui-se nas pequenas conquistas individuais. Mas se resistimos tanto, não resistiremos mais?
Toda a gente o percebe. O deseja. Menos a Comissão Europeia, para quem já estamos a ficar demasiado moles na aplicação dos sacrifícios. No primeiro relatório pós-troika, atira-nos de novo para o coma de que queremos despertar. Bruxelas não quer os portugueses a ganhar mais; Bruxelas quer os idosos com reformas ainda mais curtas; Bruxelas quer mais impostos nas rendas da habitação; Bruxelas quer, no essencial, o freio mais justo.
Em 2015, pese embora não sermos cavalos amestrados do circo, temos todos a obrigação de lhes dar um coice. Viver em estado de coma não é viver. Viver num Estado em coma também não.                                                                                                                                               
   PEDRO IVO CARVALHO      Jornal de Noticias