sábado, 13 de dezembro de 2014

Portugal vende as "as jóias da coroa"


        
 Os dirigentes europeus contavam com Portugal para dar o exemplo em matéria do sucesso da política de austeridade, quando aplicada de forma séria. Que pena! Apesar das restrições sem precedentes, Portugal é obrigado a vender "as jóias da coroa", para travar a espiral do défice.      
                                                                                                                                                                 O Estado português está a ruir a pouco e pouco. Em Abril de 2011, quando recebeu um empréstimo da troika (UE, BCE e FMI) de €78 mil milhões para evitar a bancarrota, o país comprometeu-se a fazer privatizações. Mas sob a chefia de [Pedro] Passos Coelho, o bom aluno da disciplina orçamental exigida, a colocação à venda as "jóias da coroa" – ou do que delas resta – foi acelerada. Com o objectivo de reduzir drasticamente o défice orçamental. No fim de 2012, para satisfação da troika, o país fechou as contas com um défice de 5,6% do PIB, em comparação com os 6,7% do ano anterior. O objectivo era chegar aos 3%, no fim de 2014. O que não vai acontecer
Tal como aconteceu com outras empresas portuguesas, mergulhadas em plena recessão e sujeitas a cortes orçamentais brutais, os estaleiros navais de Viana do Castelo foram postos à venda. Desde 2012, sucederam-se os candidatos noruegueses, chineses e brasileiros à compra do número um nacional do sector  Mas as negociações com a Empordef, a holding estatal proprietária, arrastaram-se. "É por causa desta indecisão que está tudo parado", irrita-se [o presidente da empresa] António Costa. No final, o grupo russo RSI, do magnata Andrei Kissilov, sem qualquer experiência no sector naval, deverá ganhar a corrida até Março  por €10 milhões. De passagem, o Estado deverá pagar a factura mais pesada de €280 milhões. Triste destino o destes estaleiros navais emblemáticos – nacionalizados após a Revolução dos Cravos de 1974 – que, até aos anos de 1990, tinham inúmeras encomendas e chegaram a ter 2800 empregados.

Ansiedade e nervos à flor da pele

Contra o pano de fundo das enormes gruas paradas, centenas de trabalhadores dirigem-se, de cabeça baixa e a passo rápido, para a cantina da empresa. São 13 horas e o almoço está à espera. Para sermos mais precisos, são 526 trabalhadores dos estaleiros navais de Viana do Castelo (Norte de Portugal), situados entre o Rio Lima e o Oceano Atlântico. Esta manhã, como todos os dias, chegaram às 8 horas, para não fazer nada – para jogar às cartas, discutir, matar o tempo. Só uns 30 trabalharam vagamente na reparação de um navio. Desde 2007, a situação da empresa é de declínio lento e, nos últimos meses, a actividade é praticamente nula, devido à falta de encomendas. É verdade que foi assinado com a Venezuela um contrato de dois navios de carga – a entregar em 2014 – no valor de €128 milhões. Mas os trabalhos foram suspensos, sem se saber realmente porquê.
"Aquilo a que estamos a assistir aqui é terrorismo psicológico", comenta, junto à entrada, o presidente da comissão de empresa, António Costa. O seu rosto tem uma expressão tensa e cansada. "Os nervos estão à flor da pele e alguns têm crises de ansiedade. Não fazer nada, não saber nada, dá cabo do moral." António Costa começou a trabalhar aqui aos 14 anos. A maioria passou décadas nestes cais: uma vida inteira. "A maior parte gostaria de pedir a reforma antecipada, aos 55 anos, mas, com a nova lei, é impossível", diz, num tom triste, o seu camarada José Pereira. Partidário da austeridade a qualquer custo, o Governo conservador de Passos Coelho suprimiu as pré-reformas e aumentou a idade legal da reforma para os 65 anos.
Para os cerca de 80 mil habitantes de Viana, como para o resto do país, a grande vaga de privatizações é preocupante. "Algumas destas empresas estatais são jóias  outras jóias falsas, mas são todas grupos estratégicos. E perdemo-las para sempre", diz Bernardo S. Barbosa, director do semanário local A  Aurora do Lima. O presidente da Câmara, o socialista José Maria Costa, partilha uma preocupação nacional crescente: o sentimento de perda de soberania. Num amplo salão municipal, este engenheiro de formação mostra-se furioso com a política do Executivo. "Quando nos despojam de grupos públicos tão importantes, em proveito de empresas estrangeiras e, portanto, de interesses privados, estão, de caminho, a pôr de lado o controlo do nosso destino. Receio mesmo que, a prazo, isso venha a condicionar a nossa liberdade e a nossa democracia."

Destino dos estaleiros suscita angústia

Localmente, é o destino dos estaleiros navais (ENVC) que suscita maior angústia. Depois do hospital público, do município e da empresa alemã Enercon (que emprega 1200 pessoas no fabrico de aero-geradores), os estaleiros são o maior empregador desta região do Alto Minho. Sobretudo, desde que haja encomendas, a sua actividade tem um efeito multiplicador sobre todas as empresas da zona – dos transportes às PME que fabricam peças de montagem, passando pelo comércio local. "Desde que os estaleiros estão parados, é uma tristeza", comenta Lucília Passos Cruz, trabalhadora da indústria hoteleira. "Quando as coisas estavam a andar, os trabalhadores estrangeiros enchiam os restaurantes e os hotéis. Agora, resta-nos o turismo e o surf." Muitos estão convencidos de que há alternativas. "Em vez de vender os estaleiros em saldo, o Estado podia manter o controlo e associar-se a armadores estrangeiros", diz o presidente da Câmara, José Maria Costa. "Países como o Brasil, o México e o Chile precisam muito de barcos. Era possível criar mais de 3000 empregos." Branco Viana, presidente da União Sindical, é da mesma opinião: "O Estado devia, pelo menos, ficar com 35% das acções  Os russos prometeram não tocar nos empregos. Mas, dentro de cinco anos, podem perfeitamente abandonar a empresa e deixar os 526 operários entregues à sua sorte. E nós, os sindicatos, para quem haveremos de virar-nos, para protestar? O Estado poderá estar-se nas tintas!"



A situação actual em relação a esta e outras empresas  resume-se mais ou menos assim...Clic em baixo

Só falta vender 200 de 20 mil activos. Dos 20 mil bens móveis dosEstaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) que ficaram fora da subconcessão .