domingo, 24 de junho de 2012

Este país é isto!......



 Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.****

Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da
infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da
idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do
primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.*
***

Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o
sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe
restante, se fazia "roupa velha". Tempos em que as camisas iam a mudar o
colarinho e os punhos do avesso, assim como os casacos, e se tingia a roupa
usada, tempos em que se punham meias-solas com protectores. Tempos em que
ao mudar-se de sala se apagava a luz, tempos em que se guardava o "fatinho
de ver a Deus e à sua Joana".****

E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos
Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na
Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana
pode arrasar.****

Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o
País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.****

Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais tinham como
filhos uns pivetes tiranos, exigindo malcriadamente o último modelo de mil
e um *gadgets* e seus consumíveis, porque os filhos dos outros também
tinham. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os
encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão
motorizada da sua potência genital. Passou a ser tempo de gente em que era
questão de *pedigree* viver no condomínio fechado, e sobretudo dizê-lo, em
que luxuosas revistas instigavam em *couché* os feios a serem bonitos, à
conta de *spas* e de marcas, assim se visse a etiqueta, em que a *beautiful
people* era o símbolo de *status,* como a língua nos cães para a sua raça.**
**

Foram anos em que o Campo se tornou num imenso *ressort* de Turismo de
Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o *coktail party* e a *
rave*. Houve quem pensasse até que um dia os Serviços seriam o único
emprego futuro ou com futuro.****


O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos
parolos, de quem os citadinos se envergonhavam, salvo quando regressavam à
cidade dos fins de semana com a mala do carro atulhada do que não lhes
custara a cavar e às vezes nem obrigado.****


O país que produzia o que se podia transaccionar, esse, ficou com o
operariado da ferrugem, empacotados como gado em dormitórios, e que os
víamos chegar mortos de sono logo à hora de acordarem, as casas verdadeiras
bombas-relógio de raiva contida, descarregada nos cônjuges, nos filhos, na
idiotização que a TV tornou negócio.****

Sob o oásis dos edifícios em vidro, miragem de cristal, vivia o mundo
subterrâneo de quantos aguentaram isto enquanto puderam, a sub-gente. Os
intelectuais burgueses teorizavam, *ganzados* de alucinação, que o conceito
de classes sociais tinha desaparecido. A teoria geral dos sistemas supunha
que o real era apenas uma noção, a teoria da informação substituía os
cavalos-força da maquinaria pelos *megabytes* de RAM da computação
universal. Um dia os computadores tudo fariam, o Ser-Humano tornava-se um
acidente no barro de um oleiro velho e tresloucado que, caído do Céu,
morrera pregado a dois paus, e que julgava chamar-se Deus, confundindo-se
com o seu filho e mais uma trinitária pomba.****

Às tantas, os da cidade começaram a notar que não havia portugueses a
servir à mesa, porque estávamos a importar brasileiros, que não havia
portugueses nas obras, porque estávamos a importar negros e eslavos.****

A chegada das lojas-dos-trezentos já era alarme de que se estava a viver de
pexisbeque, mas a folia continuava. A essas sucedeu a vaga das lojas
chinesas, porque já só havia para comprar «balato». Mas o festim prosseguia
e à sexta-feira as filas de trânsito em Lisboa eram o caos e até ao dia
quinze os táxis não tinham mãos a medir.****

Fora disto, os ricos, os muito ricos, viram chegar os novos ricos. O ganhão
alentejano viu sumir o velho latifundário absentista pelo novo turista
absentista com o mesmo monte mais a piscina e seus amigos, intelectuais,
claro, e sempre pela reforma agrária, e vai um uísque de malte, sempre ao
lado do povo, e já leu o *New Yorker*?****

A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo,
do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o
morto em Auschwitz. Veio o crédito ao consumo, a Conta-Ordenado, veio tudo
quanto pudesse ser o ter sem pagar. Porque nenhum Banco quer que lhe
devolvam o capital mutuado, quer é esticar ao máximo o lucro que esse
capital rende.****

Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os
Bancos instigavam à compra, ao *leasing*, ao *renting,* ao seja como for
desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.****

Tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo
futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para
aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao
dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O
Inferno começava na terra.****

Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do
fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder,
querem a canalha contente.
E o circo do consumo, a palhaçada do crédito
servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à
noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e
telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é
nula. E, contentes, cretinamente contentinhos, os portugueses tinham como
tema de conversa a telenovela da noite, o jogo de futebol do dia e da noite
e os comentários políticos dos "analistas" que poupavam os nossos miolos de
pensarem, pensando por nós.****

Estamos nisto.****

A Grécia pode cair. Com ela a Europa.****

Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa
altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se
tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha
ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande
parte de nós.****

 ****

  *Este e-mail foi escrito em profundo desacordo e intencional desrespeito
pelo novo Acordo Ortográfico, ao qual, felizmente, o Autor do texto também
não aderiu!*****

  



*José António Barreiros, advogado


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