terça-feira, 3 de novembro de 2015

...Como se sobrevivia nos anos 40, 50 no Alentejo!


Final da Rua Duque da Terceira-anos -50-Alvalade-Sado
A habitação rural é pobre, de uma pobreza confrangedora que impressiona de forma desagradável quem não tenha a vista deformada por algum daltonismo de natureza especial. As casas, construídas de taipa e cobertas por telha de canudo, têm um único andar térreo, de chão de terra batida ou de tijolo. Comunicam com o exterior por uma porta de postigo, sendo na maioria desprovidas de janelas, tidas como um luxo, portanto desnecessárias; tanto mais que encarecem a construção. Tanto por dentro como por fora são caiadas, o que lhes dá um aspecto de limpeza que as distinguem favoravelmente das suas irmãs doutras regiões.
No caso das duas divisões, a de entrada serve de cozinha, casa de jantar, casa de estar, etc, e a outra de quarto de cama (melhor diríamos de dormitório) e também de dispensa. O mobiliário da casa de entrada consiste em meia dúzia de utensílios de cozinha, uns pratos, umas tijelas, duas ou três quartas para a água, alguns talheres de ferro, uma mesa com gavetas, meia dúzia de cadeiras de fundo de bunho, nas paredes estampas amarelecidas pelo fumo e em lugar de honra alguma “preciosidade” comprada nas feiras. No quarto de dormir, além de um ou dois catres, um lavatório, uma banca de cabeceira e duas ou três arcas ou malas, onde se guarda a fatiota domingueira, a colcha de seda do casamento, os legumes, as frutas, etc. Já se sabe que nem sempre a pobreza atinge estas proporções havendo em 100 familias de jornaleiros aproximadamente umas 20 que sempre vivem um pouco melhor. Devem possuir casa própria 60% dos trabalhadores rurais; os outros vivem em casas arrendadas, pagando rendas que vão dos 15$00 a 25$00 por mês.  Não tirando os jornaleiros  mais de 2000$00 escudos por ano, a renda de casa leva-lhes logo em média 240$00, ou seja 12% dos seus ganhos. Muitas casas disfrutam de pequenos quintais onde criam umas galinhas, semeiam uns alhos e plantam alguma figueira ou oliveira. Como se vê pelo que fica disto, não exagerámos nas nossas palavras de começo, que infelizmente são bem verdadeiras. Este estado de coisas necessita solução, que apresenta, não o negamos, dificuldades tremendas.
Começaremos por tratar da localização das habitações, hoje dentro dos núcleos populacionais, e que havia toda a vantagem em transferir para o campo, roubando os chefes de família às más companhias e à maldita taberna, sua ruína moral e física. Bem sabemos que para a resolução deste problema tinham que se resolver outros já de si difíceis, como a questão do aforamento das pequenas parcelas de terreno nas extremas das herdades, empréstimos para a construção de casas, eu sei lá, um sem número de coisas que precisavam estudo aturado mas em absoluto realizáveis. Como se viu, cada habitação não tem o mínimo de divisões sem o qual a vida moral das famílias é, por força, de nível baixíssimo. A promiscuidade vergonhosa em que vivem pais e filhos dos dois sexos, faz desaparecer bem cedo nas pobres crianças toda e qualquer espécie de pudor e transforma adolescentes em seres amorais e imorais. E assim, gerações após gerações se vão queimando numa desmoralização completa, que pode um dia ter repercussões violentas na sociedade.
Devia, portanto, criar-se um tipo de habitação adequada ao meio, com um mínimo de 4 divisões a que, sendo possível, se devia acrecentar uma latrina onde se instalaria um chuveiro. A  dominar de alto de todos estes problemas temos a questão financeira, pois não é com “jornas” (um dia de trabalho) de 7$00 e 8$00 diárias que eles se resolverão, sem que de fora venha o indispensável auxílio. Ao pessoal contratado, os lavradores fornecem habitação nos montes, que não é melhor do que a dos jornaleiros. O trabalhador tem três refeições: almoço, jantar e ceia. O almoço é às 8 ou 9 horas, e consta de uma sopa de toucinho ou de alho, com ou sem condutos. Hoje já há muitos que por uma questão de economia tomam de manhã apenas café e pão. O jantar é ao meio-dia ou à uma hora da tarde, compõe-se de sopa de grão ou de feijão, às vezes levando massa, outras arroz. A ceia é às 8 ou 9 horas da noite, e ou tem uma composição bastante semelhante ao jantar, ou consta apenas de pão com qualquer conduto (uma sardinha assada, azeitonas, queijo, etc). Falta-nos dizer que mesmo a acompanhar a sopa se come pão, que tem um consumo extraordinário, visto ser a base da alimentação do trabalhador alentejano. A comida umas vezes tempera-se com azeite, outras com toucinho. Nos dias de festa é da praxe um cozido à portuguesa, com couve e  carne de porco ou de carneiro, e quando doentes, sempre que podem, não deixam de tomar a sua canja de galinha. A nosso ver a alimentação apresenta  graves deficiências não só na composição, como também na própria quantidade de alimentos ingeridos por cada unidade de consumo. Quando o trabalho falta come-se ainda pior, facto que nos é atestado pelo emagrecimento que se nota nessas alturas em parte da população. Quanto à composição das refeições verifica-se ser desequilibrada – excesso de hidratos de carbono e escassez de albuminóides e gorduras. Quer dizer: a maioria vive com menos do que se considera ser estritamente necessário para manter um indíviduo que dispende poucas energias.

 _António Luis Seixas Felix da Cruz in “A Freguesia de Alvalade”, 1941.

Tirado daqui