quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Cidadãos europeus, Uni-vos!*

A luta de classes está a voltar, sob nova forma, mas com a violência de há
cem anos: agora é o capital financeiro a declarar guerra ao trabalho

*Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos
as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta
de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os actores
sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de
classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos
anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais
equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos. Os adversários verificaram
que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital
consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em
troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam
importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa
socialista.
Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos
níveis de competitividade indexados a altos níveis de protecção social; o
modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem
precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer
planos de futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz
social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis.
O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma
declaração de guerra: o acumulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão
laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por
terra com inaudita arrogância e a Espanha é mandada recuar décadas na sua
história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões,
eliminar direitos laborais (facilitar despedimentos, reduzir indemnizações).
A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros
países da Europa, muito para além da Europa do Sul. A Europa está a ser
vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam
a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não
pagarem os custos políticos da devastação social.
O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima
das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer
cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 mil milhões de dólares
seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos
insistem em dizer que não há dinheiro para isso, como se explica que, de
repente, tenham surgido 900 mil milhões para salvar o sistema financeiro
europeu? A luta de classes está a voltar sob uma nova forma mas com a
violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara
guerra ao trabalho.
O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em
conta dois factos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade
de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham
trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como
trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele será bem
frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de
mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de
imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia.
A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou
é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que
clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e
as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos
governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as
ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o
socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital
produtivo se desvincular do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e
terá que ser combatido por todos os meios.

Boaventura Sousa Santos



Esta análise é a realidade de um futuro não muito distante. Tudo está em causa ...justiça que não funciona ...segurança.....credibilidade do Estado ....dos partidos ...corrupção....juventude sem futuro nem objectivos..... ! Estamos a resvalar para o caos intencionalmente com o objectivo de alterar tudo para o lado do capital nem que seja preciso impor um regime autoritário....... infelizmente para os trabalhadores, o futuro não irá desmentir o professor Boaventura Sousa Santos ---------------José do Rosário