segunda-feira, 10 de julho de 2017

E..AQUI COMEÇOU O FIM DO IMPERIO COLONIAL

                                       

Goa Damão e Diu passaram a ser recordações do Império Português.
Muitos historiadores, ainda que em 2011 se comemorem 50 anos sobre o acontecimento, consideram que a invasão das posições portuguesas naqueleterritório foi o início de um processo de desconstrução do que alguns chamaram de Império Português. Há no entanto que considerar que várias teses defendem com argumentação que temos por válida que o Estado da Índia não fazia parte de nenhum Império, mas sim de uma realidade nacional com quase cinco séculos.

a) Antecedentes


O Estado da Índia Portuguesa, com Goa como principal território, chegou até ao século XX como o remanescente do grande número de praças e fortalezas portuguesas ao longo das costas do sub-continente indiano.

É importante notar que, para os portugueses, o conceito de Índia não correspondia necessariamente ao subcontinente. Em muitos casos, a designação era utilizada para referir tanto a costa do oceano Índico, como as fortalezas portuguesas da costa oriental de África, das costas arábicas ou persas.


Ao contrário de outras possessões portuguesas, o Estado da Índia Portuguesa tinha um estatuto diferente dos territórios africanos. Goa tinha direito a eleger os seus próprios representantes às cortes do reino e tinha representação no parlamento de Lisboa desde 1822.


À época da sua conquista, em 1510, Goa era um território controlado pelos muçulmanos (a que os portugueses chamavam «mouros»), contra os quais os hindus se encontravam em guerra. O Islão tinha começado a sua expansão sobre a costa ocidental do sub-continente indiano logo no século VII. As relações entre as costas da Arábia e a costa ocidental da Índia, foram aliás muito anteriores sequer ao advento do Islão. O controlo de Goa foi resultado da política de alianças de Portugal com os reinos hindus, que igualmente combatiam os muçulmanos.


b) A Independência impossível

Desde que se levantou a questão de Goa, que a possibilidade de Portugal conceder a independência àquele território tem sido avançada por vários sectores, como caminho que deveria ter sido seguido por Portugal, para evitar os acontecimentos de 1961.

A maioria dos sectores políticos portugueses concorda que a invasão do território por parte da União Indiana foi ilegal, e em absoluta contravenção das regras do Direito Internacional, que a União Indiana violou ao invadir território português.


Ocorre que, a seguir à revolução de 25 de Abril de 1974, o então governo de Portugal reconheceu a posse daqueles territórios à União Indiana, aceitando uma situação de domínio «de facto», entregando definitivamente - do ponto de vista legal – os territórios ao país invasor.


Entre as justificações apresentadas, está a de que já nada restava fazer, uma vez que o regime saído da revolução de 28 de Maio de 1926 (Estado Novo) tinha persistido na sua política colonialista. Aventam os mesmos sectores que a solução teria sido a da independência de Goa, nomeadamente durante os anos 50, o que teria levado a que a União Indiana não tivesse argumentação para invadir o território.


Há, porém, um número de lacunas naquele raciocínio, que nos podem fazer concluir que tal hipótese não só nunca teria sido possível de implementar, como além disso nunca poderia ter sido aceite pelo governo da União Indiana.


c) O nacionalismo hindu

Quando Mohandas (o Mahatma) Ghandi, iniciou a sua caminhada, que culminaria com o seu assassinato pelos nacionalistas hindus, já havia no sub-continente diversos movimentos favoráveis à independência da Índia.

O problema é que as fronteiras dessa Índia mítica não eram claras para ninguém e os ultra-nacionalistas consideravam os reinos que existiam antes da chegada dos muçulmanos como origem do seu direito à independência.


De facto, entre o século II aC, até ao século XII, altura em que se estabelece o primeiro sultanato muçulmano, o sub-continente indiano foi governado por uma miríade de reinos e impérios, cujos domínios, ainda que nunca coincidentes, se estendiam desde as montanhas do Hindu-Kush até ao Ceilão (actual Sri-Lanka).


O nacionalismo indiano foi portanto criado tendo como referência esse passado e essa realidade geográfica, que incluía territórios que corresponderam a países tão distintos quanto o Afeganistão, o Nepal, o Sri-Lanka, o Sikkim, o Butão, o Bangladesh, a Birmânia e naturalmente, Goa. A Índia que os nacionalistas hindus pretendiam criar tinha por base impérios do passado, e por isso, para muitos, aparecia como uma tentativa de reconstituição de um Império.


A ligação entre a futura Índia e essa realidade histórica é, de um ponto de vista meramente racional, um absurdo. Do ponto de vista do Direito Internacional é inaceitável, porque manifestamente ilegal. Correspondia por exemplo a que o Estado Italiano exigisse o controlo da Líbia da França ou do Reino Unido, porque há vários séculos os territórios que esses países ocupam pertenciam ao império romano.


No entanto, e independentemente de não ter um suporte racional nem legal, o nacionalismo indiano, de cariz hindu, foi ganhando cada vez mais força. Em 1920, Mohandas Gandhi é eleito como líder do Partido do Congresso. Gandhi era visto pelo líder muçulmano Mohamed Ali Jinnah como um perigoso nacionalista hindu.


O líder muçulmano defendia a autonomia administrativa da Índia, mas temia a ascensão dos hindus e a independência, que considerava como perigosa para os muçulmanos, dado o teor nacionalista extremista que esta ameaçava assumir.


Entre 1930 e 1935, a inquietação dos muçulmanos aumenta. Os muçulmanos consideram como principal perigo o domínio dos nacionalistas hindus, que vêem um perigo de morte para os muçulmanos da Índia.


Em 1937, o Partido do Congresso de Mohandas Gandhi recusa formalmente uma aliança com a liga muçulmana, reafirmando assim a intenção de avançar com um estado hindu, que corresponderia aos territórios «históricos» dos hindus. Na mesma altura, Nehru, como presidente do Partido do Congresso, profere um discurso em que afirma que «...existem na Índia apenas dois movimentos: O nacionalismo hindu e o Imperialismo britânico...».


Estas declarações são vistas como uma negação dos direitos das inúmeras minorias, afirmando a oposição ao domínio britânico pelo movimento hindu, e negando a todos os outros o direito à existência.


Independentemente da sua origem religiosa, independentemente da incrível diversidade de raças, religiões e línguas, a Índia do Partido do Congresso será hindu, e nada mais.


A Índia sonhada pelo dirigente do Partido do Congresso parecia-se cada vez mais com um império” e cada vez menos “com um Estado-Nação.


Esta movimentação e as tomadas de posição dos líderes do Partido do Congresso compreendem-se à luz de uma certa visão nacionalista que interpreta os acontecimentos dos últimos milénios e vê o aparecimento da Índia saída do império britânico como uma espécie de ressurgimento do poder hindu, anterior às invasões muçulmanas, anterior à chegada dos europeus ou anterior ao estabelecimento do império Mughal (islâmico), que dominou a Índia até ao século XVII.


A divisão era inaceitável, porque ela tinha sido a razão da decadência. A Índia saída do Império Britânico tinha por isso que sair unificada e deveria procurar erguer um país capaz de atingir o desenvolvimento do seu tempo dourado.


A descolonização da Índia Britânica não correu bem, com a separação de uma parte significativa, mas muito poderia ser perdido, se nos inúmeros territórios que ficaram sob o controlo do governo de Nova Deli tomassem os maus exemplos dos pequenos estados que permaneciam nas fronteiras da União Indiana. Por isso, tudo teria que ser feito para garantir que esses potenciais maus exemplos terminassem.


d) A desestabilização dos estados vizinhos

i) O Principado do Sikkim: Um exemplo
Quando, após a II Guerra Mundial, as tentativas do Império Britânico para manter a «Pérola do Império» unida sob um mesmo governo falharam, começaram a ser realizados referendos por todos os territórios, para perguntar aos cidadãos qual a sua opção, e a que país achavam que o seu território deveria pertencer.

Em referendo realizado em 1947, o pequeno Principado do Sikkin, que se encontrava entre o Nepal, o Butão, a Índia e a China, recusou fazer parte da União Indiana.


A existência de uma pequena realidade nacional, dentro daquilo a que os nacionalistas hindus chamavam Índia (ou Índia “histórica”, para melhor entendermos), era, no entanto, difícil de aceitar.


O Principado do Sikkim constituía, para os nacionalistas hindus, um exemplo extremamente negativo, pois permitia criar um precedente que levaria ao aparecimento de outras realidades nacionais ou micro-estados, que sempre caracterizaram o sub-continente indiano.


Os pequenos estados eram vistos como uma das fraquezas da Índia, e a razão que levou ao início do seu declínio no século XIII. A solução lógica era garantir que tais realidades nacionais não tinham meios ou condições para subsistir.


A Índia tentou logo de início boicotar o processo, mas o facto de o Sikkim ter estabelecido relações especiais com os britânicos impediu que o principado fosse integrado na União Indiana.


O governo indiano garantiu no entanto um sistema de soberania, em que a política externa seria dirigida pelo governo de Nova Deli.


A União Indiana impôs um estatuto de semi-independência, mas não deixou de agir contra o Sikkim. O país foi sendo lentamente colonizado pelos indianos. Em 1968, o R.A.W.* inicia acções que levarão à total desestabilização do país durante os anos 70. Atentados terroristas sucedem-se e os ódios étnicos explodem repentinamente.


(*R.A.W. – Research and Analysis Wing - Trata-se de um gabinete de investigação e estudos estratégicos, patrocinado pelo governo da União Indiana, e na dependência do próprio primeiro-ministro, que foi criado em 1968. A organização mantém alegadamente braços secretos e tem como objectivo facilitar operações nos países limítrofes da Índia, no sentido de permitir aos indianos aproveitar a instabilidade em seu próprio favor.


O RAW exerceu as suas actividades no Sikkim, e exerce presentemente essas mesmas actividades no Paquistão, no Nepal, no Butão, no Sri-Lanka, nas ilhas Maldivas e no Bangladesh. Ou seja, todos os territórios que o nacionalismo hindu considera que são historicamente parte da Índia).


Em 1970, o Partido do Congresso do Sikkim (braço do partido do mesmo nome na Índia) e representante da minoria hindu, inicia uma violenta revolta contra a monarquia do Sikkim, exigindo maior representatividade para o crescente número de hindus. A instabilidade política e a violência instalaram-se. A solução do problema surgiu convenientemente através de um pedido de um grupo de representantes do Sikkim, para que o principado fosse aceite como um estado da União Indiana.


Em 1973 a Índia intervém, sob a alegação de que teme que a China considere o território como parte do Tibet e o anexe.


O primeiro-ministro, aliado dos indianos, não se conseguiu entender com o príncipe, e em 1975 apresenta um pedido formal à Índia para que o país seja anexado como mais um estado da União Indiana.


A questão foi referendada e a população colocada perante o dilema de aceitar fazer parte da Índia, ou, ao contrário, manter a instabilidade política e os motins que tinham sido organizados pelos indianos ou ser atacada pela China. O país foi formalmente anexado em 16 de Maio de 1975.


A anexação final do Sikkim constitui uma das mais claras demonstrações de que a independência do Estado Português da Índia, nunca teria sido aceite pela União Indiana. O seu destino nunca poderia ter sido diferente do do Sikkim. O próprio Nehru afirmou isso, ao proclamar num discurso em 1955:


«...Nós não estamos dispostos a tolerar a presença portuguesa em Goa, ainda que os goeses queiram que eles aí estejam...».


A questão de Goa nunca poderia, portanto, ter alguma relação directa com as características do regime de Lisboa, o qual neste caso afirmava com alguma propriedade que a Índia apenas pretendia trocar um colonialismo por outro.


Ora, o que levou à anexação do Sikkim foi a incapacidade do pequeno estado lutar contra o terrorismo patrocinado pela União Indiana, através do R.A.W.


Este tipo de desestabilização foi, como sabemos, tentado em Goa, com ataques terroristas e com pequenos grupos de Satyagris. O Estado de Goa, no caso de aceder à independência, não teria capacidade (tal como o Sikkim ou o Butão) de resistir a uma vaga de atentados contra os cidadãos.


Se tivesse acedido à independência, a única forma que Goa teria de lutar contra a instabilidade seria mantendo algum tipo de ligação com Portugal, cuja presença militar, ainda que simbólica, era suficiente para debelar as actividades terroristas. Tal possibilidade não poderia naturalmente ser aceite pela União Indiana e seria considerada como neo-colonialismo, levando inevitavelmente à invasão e anexação, mais tarde ou mais cedo.


ii) O caso do Reino do Butão

Se o caso do Principado do Sikkim levou à anexação final e integração mais ou menos forçada do país na União Indiana, ele não é o único exemplo que demonstra que jamais Goa poderia ter sido um estado independente e autónomo.

Também no caso do Butão a questão da anexação foi levantada. Ali, havia ainda menos população hindu e a maioria budista era clara, e o Butão era também reconhecido pelos britânicos, tendo um estatuto de semi-autonomia.


Mas ainda assim, a União Indiana também exigiu o direito de gerir a política externa deste pequeno estado, exactamente como no caso do Sikkim.


Quando o Sikkim foi finalmente absorvido pela Índia, num processo muito contestado, o Butão tentou aproveitar as críticas à India para furar o bloqueio indiano que impedia a existência de embaixadas estrangeiras.


iii) Sri-Lanka, um problema de maior dimensão

Se os pequenos estados do Butão e do Sikkim são aqueles que mais facilmente podemos comparar com Goa, não é possível deixar de referir as tentações anexionistas indianas sobre o vizinho Sri-Lanka, também visto como parte da Grande Índia. Não havendo condições a nível internacional para continuar a defender posições mais ou menos «anexionistas», a verdade é que a Índia nunca deixou de considerar o antigo Ceilão como um território que deveria estar debaixo da alçada do governo de Nova Deli. Embora não existam provas claras, a verdade é que o governo do Sri-Lanka acusou oficialmente em 1983 a União Indiana de apoiar os rebeldes Tamil do norte da ilha, numa alegada tentativa de desestabilização.

Ainda hoje (2009), as aquisições de equipamentos militares por parte do Sri-Lanka são regularmente objecto de críticas por parte de militares indianos, que afirmam que o Sri-Lanka, estando na região indiana, deveria adquirir equipamentos à Índia e não a outros países. Em resposta às pressões por parte da Índia, o Sri-Lanka optou por estabelecer laços especiais com a China em termos de defesa.


O Sri-Lanka tinha a vantagem de uma posição de prestígio entre o movimento dos não alinhados, caso contrário estaria destinado a mesmo destino de Goa, se a sua dimensão (país com uma população que na actualidade atinge os 21 milhões de habitantes) não tornasse essa possibilidade inviável, ainda mais após o fim da guerra fria.


e) A invasão de Goa

Sendo impossível defender o Estado da Índia Portuguesa no caso de a União Indiana estar determinada a tomar o território, existiam ainda assim planos básicos de defesa da região.

Além de Damão e de Diu, de dimensões muito menores, o território de Goa, estava dividido em três áreas.


A região norte

- Delimitada a Norte e a Nordeste pela fronteira com a U.I.. A Leste, pela região centro e a Oeste pelo Oceano. No seu extremo Sul encontrava-se a ilha de Tissuary, onde se localizava Velha Goa e Pangim. A região era atravessada por vários rios, o que levava a que a melhor defesa contra o avanço de forças inimigas fosse a destruição de pontes. A região é plana e propicia à utilização de forças motorizadas.

Região centro

- Delimitada a Norte e a Leste pela U.I. e a Sul pela região Sul – esta região tinha algumas elevações, que implicavam a necessidade de utilizar as estradas, não sendo das mais adequadas para a progressão  de forças mecanizadas. Também era necessário atravessar alguns cursos de água para prosseguir em direcção a Oeste, onde se encontrava concentrada a administração do território.

O agrupamento que defendia esta região, era constituído por forças cedidas pelos agrupamentos Norte e Sul, e só seria efectivamente formado quando se iniciasse a “Operação Sentinela”. Ou seja, o agrupamento era criado para retirar.


Região Sul - Delimitada a Norte pela região centro, a Sul e a Leste pela U.I., e a Oeste pelo oceano. Esta região era também delimitada no seu extremo Noroeste pela pequena região da península de Mormugão. A região tinha alguma protecção dada pelos rios a Sul. Na área a Sudeste, uma linha de elevações, que em alguns casos atingem os 600m, torna a evolução de forças militares complicada. Isto implica que a evolução no sentido Sul-Norte se tinha forçosamente que fazer pela zona junto à costa. Além das elevações, no sector Leste existiam áreas irregulares, alagadas durante a monção. No entanto a invasão dá-se durante a época mais seca.


O comando desta região estava em Navelim, e a Noroeste desta posição estava a localidade de Margão, que era um entroncamento rodoviário por onde também passava a linha ferroviária. A Norte-Nordeste da localidade encontra-se uma elevação (chamada Monte Margão) onde se encontrava a 1ª bateria de artilharia.


Região de Mormugão

- Uma quarta área fora criada já nos anos 60, correspondente à península de Mormugão, onde se encontrava a cidade de Vasco da Gama, o aeroporto de Goa e o porto de Mormugão. Num plano defensivo, e havendo possibilidade de evacuação, esse seria o mais adequado ponto para organizar uma resistência eficaz. A possibilidade de receber abastecimentos estaria em princípio assegurada, fosse por via aérea ou por via marítima.

A situação em 1961

Durante os anos 50, o efectivo total de tropas portuguesas no Estado da Índia atingiu os 12.000 homens e três navios de guerra. Mas no início de 1961, e após uma visita do Gen. Costa Gomes, considerando-se que mesmo esses efectivos não poderiam deter uma invasão indiana, o governo transferiu grande parte das tropas para África, após os sangrentos atentados terroristas em Angola.

Por isso, em meados de 1961, o efectivo cifrava-se em cerca de 3.500 homens. Mas se a enorme redução dos efectivos era problemática, mais problemática era a péssima qualidade do armamento disponível, a falta de munições e o estado de treino dos militares. O sistema de comunicações, que em caso de necessidade deveria permitir a coordenação de acções dos vários destacamentos, praticamente não existia. Isto levava a que as comunicações fossem feitas através de estafetas.


O plano de defesa de Goa, chamado de «Plano Sentinela», dividia o principal território do Estado da Índia em quatro sectores, e as forças atribuídas a cada um deles tinham como principal tarefa atrasar a progressão de forças inimigas em caso de um eventual ataque. Sabendo que o principal problema seria a desestabilização provocada por atentados terroristas que pudessem servir para justificar uma invasão, os principais esforços foram dedicados ao policiamento e à manutenção da ordem pública.


Os quatro sectores de defesa acima referidos tinham os seus postos de comando estrategicamente colocados. Em teoria, deveriam permitir suportar um anel interno de defesa, aproveitando a disposição dos rios a Norte e a Leste. A Sul, a situação era mais complexa, pois a não existência de obstáculos geográficos (rios ou montes) tornava a defesa muito mais complexa.


Ainda assim, e mesmo considerando que a região Norte era a mais propícia ao avanço de forças mecanizadas, era dali que se esperava o principal avanço em caso de invasão. A União Indiana poderia utilizar meios anfíbios para garantir o atravessamento dos rios em apenas alguns dias ou mesmo horas.



O dispositivo português não contava com nenhum tipo de protecção aérea. Havia apenas alguns exemplares de armas anti-aéreas de 20mm e de 40mm Bofors. Não havia aeronaves de combate portuguesas no Estado da Índia. Em 1961 alguns caças F-86 tinham sido transferidos para a Guiné, mas não há notícia de se ter considerado a possibilidade da sua utilização na Índia, ainda mais tratando-se de material fornecido ao abrigo de acordos com a NATO.


A defesa costeira que tinha sido, juntamente com a presença naval, a razão da manutenção das praças, era inexistente em qualquer das parcelas do Estado da Índia. A única capacidade de defesa costeira que existia dependia do único navio que se encontrava na região, o Aviso Afonso de Albuquerque, armado com quatro peças de 120mm.


A artilharia era constituída por peças de campanha de 87.6mm (25 libras) que curiosamente também eram utilizadas pelo exército indiano. Aparentemente, também tinham sido distribuídas algumas peças anti-tanque de 57mm, embora não houvesse munição para elas.


As forças portuguesas foram distribuídas de forma a que os esquadrões de reconhecimento (as unidades com maior mobilidade) pudessem retirar de forma ordeira garantindo ainda assim algum poder de fogo. A artilharia foi colocada a Sul e na península de Mormugão, lugar onde não havia nenhum obstáculo à progressão das forças da União Indiana. De qualquer forma, essas unidades estavam mal equipadas. Os esquadrões de reconhecimento utilizavam auto-metralhadoras Humber e viaturas de transporte de pessoal de origem norte-americana do período da II Guerra Mundial. Eram viaturas com 20 anos, num clima tropical húmido e com pouca possibilidade de manutenção.


É também importante notar que, segundo afirmam vários militares presentes em Goa na altura, a União Indiana parecia estar informada sobre as intenções portuguesas e aparentemente tinha conhecimento da estrutura do plano defensivo português. Tal conhecimento no entanto, não parece ter sido total, dado vários incidentes que fazem parte dos relatórios, e testemunhos publicados, permitirem concluir que havia dados sobre as forças portuguesas que não eram pura e simplesmente do conhecimento das forças indianas, ou então não tinham sido transmitidos às unidades que invadiram aqueles territórios portugueses.


A invasão 

Embora tenham ocorrido confrontos entre forças de Portugal e da União Indiana alguns dias antes, podemos afirmar que as operações militares convencionais tiveram início na manhã do dia 17 de Dezembro de 1961.

Nesse dia, a União Indiana possuía forças em ordem de marcha que totalizavam 70.000 homens em armas, preparados para intervir. Desses, 45.000 constituíam o efectivo das unidades prontas para a invasão imediata do Estado da Índia, embora muitas das unidades indianas não tenham chegado a utilizar todos os efectivos na operação. Em situação de reserva, estavam unidades que permitiam disponibilizar mais 25.000 militares em caso de necessidade.


O resultado foi que houve situações na região norte, em que as tropas foram enviadas para pontos pré-definidos onde deveriam atrasar a progressão das forças da União Indiana, e tiveram que recorrer às rações de combate que transportavam. Quando o verdadeiro ataque ocorreu, as tropas já tinham consumido as rações de combate que tinham disponíveis. Os problemas logísticos eram evidentes, embora houvesse casos em que foram provocados por informações desconexas e não confirmadas, segundo as quais a situação tinha melhorado, prevendo-se a volta aos quartéis das tropas que tinham sido enviadas para os postos fronteiriços.


Até à tarde do dia 17 de Dezembro, vários dos comandos ainda discordavam sobre se o Plano Sentinela estava em vigor.


É também nessa tarde de 17 de Dezembro (já decorriam combates), que chega de Portugal via Carachi, um carregamento de munições anti-carro «Instalaza» que tinha sido pedido, utilizando-se o nome de código «chouriços». Quando a carga é inspeccionada, conclui-se que foram enviados chouriços de carne, e não munições. O erro nunca foi devidamente esclarecido.


Por volta das 09:45 do dia 17, as tropas da União Indiana ocupam a localidade de Maulinguém, a Norte-Nordeste, matando dois militares portugueses. As forças portuguesas do 2º EREC, mantêm-se nas proximidades da localidade e pedem autorização para contra-atacar. Essa autorização é recusada por volta das 13:45.


Não é claro se o fez antes de recebida a ordem, mas o 2º EREC efectua um ataque ao posto tomado por dois pelotões indianos, expulsando as tropas invasoras, que retiram. O posto é reocupado e as tropas assumem posições defensivas.


É durante a tarde do dia 17 que mais uma modificação do «Plano Sentinela» coloca unidades sob a dependência directa do Quartel General, que passa a dar ordens directamente às forças, passando por cima do comando de cada uma das regiões (agrupamentos). É cumprindo essa determinação que, às 21:00, o QG dá ordens aos dois esquadrões- 1º e 2º  EREC - para iniciarem as preparações para a retirada em direcção a Assonará. A retirada tinha sido antecipada pelo 1º EREC, pelo que decorre rapidamente.


Às 21:30 são pela primeira vez referenciadas viatura do lado indiano, na região de Doromagogo. Uma força de reconhecimento do 1º EREC é enviada às 02:00 do dia 18 para investigar e apoiar a retirada das forças de polícia que ainda ali se encontrassem. A área estava na altura sob bombardeamento de artilharia indiana, mas os militares mantiveram-se dentro das auto-metralhadoras.


Esta força é alvejada por tropas indianas na sua viagem de retorno, tendo respondido com fogo de auto-metralhadora, e posto em debandada a tropa indiana, que deixaram alguns mortos no terreno. A força indiana tomou o ruído do escape roto de uma das duas auto-metralhadoras pelo ruído de carros de combate pesados. Havia na área, carros de combate AMX-13 indianos, que poderiam ter sido utilizados com toda a facilidade, não fosse o receio de encontrar carros de combate portugueses que não existiam.


Pelas 22:30, o agrupamento centro continua sem saber exactamente com que forças conta. Ninguém parece saber ao certo quem comanda o 2º EREC, que deveria passar para o comando do agrupamento centro logo que entrasse em execução o «Plano Sentinela».


Dia 18

É por volta das 04:00 às 04:30 da madrugada de 18 de Dezembro que se inicia o bombardeamento de artilharia sobre posições portuguesas mais a sul em Maulinguém, onde também são referenciados carros de combate. O 2º EREC deixa de ter contacto rádio nesta altura.

Às 04:30 Bicholim está debaixo de fogo e pelas 04:40 as forças portuguesas destroem a ponte naquela localidade. Também a ponte sobre o rio Chaporá em Colvale é preparada para destruição. Às 05:00 da manhã, perante a aproximação de carros de combate indianos é destruída a ponte em Assonorá.


A esta hora, o agrupamento Centro, inicia as operações que lhe estão destinadas para atrasar a eventual progressão de forças inimigas. Às 05:30, as tropas portuguesas saem do quartel de Pondá em direcção a Usgão, marchando na direcção das forças inimigas. Pelas 07:00 o comando da força é informado da situação do 2º EREC com que não tinha conseguido contactar. Aquela força (que estava na dependência do comando do agrupamento centro) tinha sido forçada a recuar, perante a pressão indiana. São emitidas novas ordens, tendo em consideração que os objectivos estavam já nas mãos do inimigo.


06:00 – O agrupamento sul é oficialmente informado de que a«Operação Sentinela» teve início. Às 07:00 da manhã, forças indianas bombardeiam o aeroporto de Dabolim.


Por volta das 08:00 da manhã o agrupamento centro é informado da continuação do avanço das forças da União Indiana, que avançam em direcção a Ondá, de onde as forças portuguesas são obrigadas a retirar. Este avanço, pela sua velocidade, poderia implicar o isolamento do destacamento que se encontra em Molem, pelo que estas tropas recebem ordem para retirar para Darbandorá logo que estabeleçam contacto com o inimigo.


08:30 – As forças da União Indiana invadem a fronteira sul, em Polém.


Às 09:00 os receios do comando do agrupamento centro justificam-se, pois chega informação de que o inimigo está numa posição a meio caminho entre Usgão e Onda.


A essa mesma hora, o «Plano Sentinela» começa a ser posto em prática pelo agrupamento Sul. É destruída a ponte de Ordofondo, para dificultar a progressão inimiga.


10:00 - No sector Norte, as tropas portuguesas continuam a retirada durante a manhã, conforme os planos, e sob fogo da artilharia indiana, que corrige o tiro à medida que as forças de infantaria avançam. As tropas portuguesas retiram para os arrabaldes a norte de Mapuçá, mas entre as 12:00 e as 13:00 são assinaladas forças hostis já dentro daquela localidade, impedindo a retirada das forças portuguesas, que se arriscam a ficar cercadas.


Forças do 1º EREC retiram através das ruas de Mapuçá, com as auto-metralhadoras à frente disparando para cobrir a retirada das viaturas de transporte de pessoal, passando por entre as forças hostis sem sofrer baixas. Dirigem-se para sul para o Ferry-Boat que os deverá levar para Pangim.


10:00 - Forças do 3º EREC (agrupamento centro) efectuam as destruições previstas em Darbandorá, retirando de seguida para Curchurem, rumo a Sul, via Daucondá.


11:00 - As forças do agrupamento centro, que deviam retirar para a ilha de Goa (2º EREC) passam pela ponte de Candeapar. A força corre no entanto o risco de ficar isolada, pois no seu eixo de retirada está a ponte de Banastrim, que está prestes a ser destruída, por causa da aproximação das forças indianas que ocupam Piligão.


Também às 11:00, forças do 4º EREC (agrupamento Sul) entram em contacto com o inimigo que avança a partir da Polém.


Nesta altura, meio-dia, tem início o combate entre o Aviso Afonso de Albuquerque e vários navios da marinha da Índia. O navio é fortemente atingido e conforme planeado é encalhado na proximidade de uma das praias da foz do rio Mandovi. Ainda é atingida uma fragata indiana, que se retira.


12:30 – O comando do agrupamento centro passa a ponte de Borim, que é destruída precisamente às 13:00 dirigindo-se para a península de Mormugão. As forças do agrupamento centro passam a estar sob controlo do comando do agrupamento Sul.


13:30 - É destruída a ponte de Banastrim, depois de todas as forças e destacamentos do agrupamento centro a terem atravessado. É assim cortada a única ligação por terra com a Ilha de Goa (ou ilha de Tissuary).


14:00 – Uma ordem incorrectamente interpretada leva o 4ºEREC a retirar de Bali para Norte, para Nuvem. Quando ali chegou, às 15:30, foi mandado reocupar as posições anteriores. Temendo a falta de combustível, são-lhe dadas novas instruções para tomar posição a sul de Margão em Chinchinim.


16:00 – O 3º EREC recebe ordens para destruir a ponte de Quepem.


Pelas 17:45, as forças do 1º EREC e da 9ª CC (Agrupamento Norte) completaram a sua travessia do rio Mandovi em direcção a Pangim, na ilha de Goa. O último a retirar é o comandante do esquadrão. Nessa altura aparecem na margem Norte, carros de combate indianos, ao mesmo tempo que a artilharia se prepara para bombardear a cidade de Pangim. Os carros não podem atravessar o rio, mas a artilharia pode destruir a cidade, bem assim como Velha Goa.


18:00 – As forças da União Indiana atravessam o rio Zuari, para a ilha de Goa, utilizando transportes de minério.


Na ilha de Goa, uma vez que o agrupamento Norte não tem armas anti-carro nem artilharia, não pode responder nem ao fogo da artilharia inimiga nem ao fogo dos carros de combate que disparam em movimento.


Perante a situação, e na perspectiva de as forças da União Indiana provocarem um massacre sobre a população civil, o comandante do agrupamento Norte propõe a negociação da rendição.


22:00 – A capital de Goa, cidade de Pangim, é ocupada por forças da União Indiana.

f) A Invasão de Damão

Com 50km quadrados de extensão, Damão tinha uma população estimada em 22.000 habitantes e dividia-se em duas parcelas, separadas pelo rio Sandalcalo. A parcela sul, de menores dimensões, era chamada de Damão-Grande (por causa da enorme fortaleza que ali se encontrava), e a outra de maiores dimensões, era chamada de Damão-Pequeno, também por causa da dimensão muito menor do fortim na margem norte do rio Sandalcalo.

Em Damão, encontravam-se duas companhias de caçadores e uma bateria de artilharia. O armamento das forças era idêntico ao que se encontrava nos restantes territórios. Relativamente antigo e com munição insuficiente ou fora do prazo de validade, o que levava a que muitas vezes as granadas não explodissem.


As operações militares da Índia tiveram início bastante tempo antes da invasão, com as violações do espaço aéreo por parte da aviação indiana, tanto com aeronaves de asa fixa como com helicópteros.


Para a invasão, as forças da União Indiana prepararam um efectivo que ascendia a 4.000 homens, constituído por forças regulares e forças do SRP (State Reserve Police).


As forças portuguesas tinham também recebido, cerca de dez dias antes da invasão, um canhão anti-aéreo de 20mm destinado a proteger a artilharia. Damão tinha sido protegido com pequenos campos de minas e tinham sido construídos abrigos defensivos.


18 de Dezembro

A acção militar contra Damão teve início por volta das 02:00 da manhã do dia 18 de Dezembro, contra o posto de Benselor.

Às 04:00, praticamente todos os postos da União Indiana começam a fazer fogo de armas ligeiras contra as posições portuguesas ao longo de toda a fronteira. As forças indianas avançadas constituídas por um batalhão a três companhias (900 homens, segundo fonte indiana) progridem pela área central do território norte, tendo como objectivo tomar o aeroporto.


Os oito militares portugueses nessa posição foram surpreendidos, tendo resistido até que as suas posições foram

tomadas.

04:15 – Forças da União Indiana avançam sobre Calicachigão.


Até esta altura o comando do agrupamento de Damão ainda considerava que se estava perante um dos muitos incidentes de fronteira que já tinham ocorrido.


04:30 – A artilharia da União Indiana inicia um bombardeamento sobre a fortaleza de Damão Grande.


04:45 – Logo que se iniciou o bombardeamento, a artilharia portuguesa recebe ordens para fazer fogo de contra-bateria sobre as posições indianas em Cuntá, onde os cálculos de tiro consideravam estar a artilharia inimiga.



Os ataques indianos e as dificuldades de transporte fizeram com que o comando em Damão Grande (sul) ficasse praticamente isolado das forças em Damão-Pequeno.



07:00 – Um grupo de militares enviado ao aeroporto para verificar a situação é surpreendido pelas forças indianas que já ali se encontravam.


07:30 – O território de Damão é sobrevoado por aviões a jacto e de seguida atacado violentamente com bombas e foguetes. Este ataque dura meia hora.


A esta altura, informados pelo grupo de reconhecimento que se tinha deslocado ao aeroporto, as forças portuguesas em Damão Pequeno (norte), na fortaleza de S. Jerónimo, atacam as tropas indianas no aeroporto com fogo de morteiro.


08:30 – As posições portuguesas junto da fronteira em Damão-Grande (sul) informam que estão a ser atacadas pela artilharia indiana, recebendo ordens para se posicionarem nas posições defensivas previamente estabelecidas.


Também às 08:30 a artilharia indiana responde ao ataque português contra o aeroporto, atacando Damão-Pequeno.


09:30 – Ocorre o segundo ataque da aviação da União Indiana. Dois jactos bombardeiam a cidade, matando civis mas não atingindo qualquer objectivo militar.


10:00 – As forças portuguesas na fortaleza de S. Jerónimo (Damão-Pequeno) que estavam a fazer fogo de morteiro contra o aeroporto começaram a ser atacadas por fogo de contra-bateria da artilharia indiana. A força é obrigada a mudar de posição. A pontaria da artilharia indiana foi no entanto considerada pouco eficaz.


À mesma hora, o Maj. Costa Pinto, comandante do agrupamento de Damão, atravessa o rio de sul para norte, para se inteirar da situação, dado aparentemente o avanço das forças indianas só se verificar naquela área.


10:30 – É atacado o posto de Cátria, resultando na morte de um polícia.


11:00 – Ocorre o terceiro ataque da aviação da União Indiana. Os aviões atacam a área da frente de combate e a fortaleza de S. Jerónimo, onde tinham referenciado a origem dos disparos de morteiro portugueses. É violentamente atacado o posto de Bimpor, onde a resistência portuguesa tinha sido eficiente. O ataque não tem consequências porque as forças portuguesas estão protegidas pelas trincheiras previamente escavadas. Bimpor resistirá por mais duas horas, até retirar para Marvor.


11:30 – As forças portuguesas em Varacunda, esgotaram as suas munições. O posto ainda é remuniciado, sendo enviada uma viatura debaixo de fogo do inimigo.


12:00 – Sem munições para continuar a combater, é abandonado o posto de Benselor, retirando em boa ordem para Cátria. Esta retirada facilita a progressão das forças indianas. O comandante do agrupamento ordena que a artilharia que se encontra na margem sul do rio Sandalcalo (Damão Grande) ataque as posições indianas em Cuntá, para continuar a manter a pressão sobre o inimigo.


No entanto, a ordem não é cumprida. Aparentemente, na falta de outras instruções, o comandante da Bateria (Cap. Felgueiras de Sousa) terá decidido içar bandeiras brancas, ordenando a destruição do material.


Gera-se confusão por causa de ordens emitidas pelo comandante da Bateria de Artilharia, sobre a rendição da praça. Ordens são dadas aos gritos, de ambos os lados do rio. Aparentemente, o comandante da Bateria de artilharia deu ordens de rendição às restantes forças na margem norte, sem que para isso tivesse qualquer autoridade, e sem ter recebido ordem de rendição do comandante do agrupamento.


13:00 – Os vários postos na fronteira no extremo leste, de Calicachigão a Atiavar, vão ficando sem munições e retiram para Damão Pequeno.


14:00 – Ocorre o quarto bombardeamento da força aérea da União Indiana. O ataque incide sobre Damão Pequeno, onde se concentrava o principal foco de defesa, em Damão Pequeno, na margem norte do rio Sandalcalo.


16:00 – A infantaria portuguesa, que continua a fazer fogo de morteiro sobre as posições indianas, volta a mudar de posição, para evitar o fogo inimigo de contra-bateria.


16:30 – Perante a continuação do fogo, a aviação da Índia efectua o seu quinto ataque aéreo contra as posições portuguesas. Desta vez, é completamente destruído o posto de Cátria.


17:00 – As tropas portuguesas retiram de Cátria em direção à fortaleza em Damão Pequeno mas continuam a resistir.


17:30 – Ocorre o sexto ataque aéreo da aviação da União Indiana, desta vez recorrendo a bombas incendiárias. O bombardeamento mata seis civis e deixa outros feridos, mas não causa nenhuma baixa entre os militares.


 No entanto, foi atingida uma embarcação que levava armas para a fortaleza de Damão Grande, tendo-se perdido armas e munições.


18:00 – A violência do ataque aéreo, desmoralizou consideravelmente as forças portuguesas, que retiram para sul, em direcção à fortaleza de Damão Grande, onde estavam hasteadas bandeiras brancas desde as 11:00.


É também por volta desta hora que é atingido numa perna por fogo inimigo o próprio comandante do agrupamento, sendo levado ao posto de socorros.


19:00 – No próprio posto de socorros decorre uma reunião para fazer o ponto da situação. Conclui-se que o dispositivo defensivo se encontra desarticulado, não sendo viável a continuação da resistência.


É dada ordem para entrar em contacto com as forças inimigas, a fim de estabelecer negociações.


20:00 - Quando uma delegação portuguesa se tenta aproximar das linhas inimigas para parlamentar, é recebida a tiro, matando um dos soldados que a acompanhava e é obrigada a retirar. As negociações não prosseguem, porque entretanto caiu a noite.


19 de Dezembro

07:00 – Com o raiar do dia ocorre o sétimo ataque aéreo contra Damão. Como ocorreu com quase todos os outros ataques, há a lamentar a morte de civis, não sendo atingidos militares.

08:00 – Uma delegação enviada pela bateria de artilharia para tentar parlamentar com o inimigo é mais uma vez recebida a tiro, e forçada a retirar.


Mais tarde, os indianos fazem transmitir a exigência de que seja o próprio comandante - que se encontrava ferido -  a apresentar a rendição.


09:00 – O comandante do agrupamento de Damão, é transportado de maca até à quinta de Manekgi, nas proximidades do aeroporto onde o comandante indiano aceita a rendição das forças portuguesas.

g) A invasão de Diu

Com 37km quadrados, Diu era o território mais pequeno do Estado da Índia. A sua população era aproximadamente a mesma de Damão (21.000 habitantes). Diu era um dos símbolos do império português. Ali decorreu a batalha que marcou o início do domínio marítimo português no Índico e se escreveram provavelmente algumas das mais gloriosas páginas da história militar portuguesa, de entre as quais se destaca o capitão António da Silveira, que resistiu em Diu aos Turcos em 1538. A fortaleza volta a resistir a um cerco em 1546.

No entanto, Diu era apenas um símbolo, pois a sua pequena dimensão e pouca importância económica tinha relegado o território para uma situação secundária.


Como nos outros territórios, também em Diu ocorreram várias violações do espaço aéreo e provocações por parte de forças irregulares da União Indiana, com o objectivo de justificar a invasão daquele território português.


Sabe-se que a 15 de Dezembro foram evacuadas populações civis indianas nas áreas próximas à fronteira, o que foi aliás correctamente interpretado como uma preparação para o ataque.


Uma curiosa ocorrência poderá ter alguma ligação com a possibilidade que se explora mais à frente.


No dia 16 de Dezembro, portanto na véspera do início das operações indianas contra Goa, ocorreu uma reunião entre o chefe da polícia da União Indiana da região e o seu homónimo português. Da conversa, a que faz referência o livro «A queda da Índia Portuguesa», de Carlos Alexandre de Morais, afirma-se que o polícia indiano pareceu estar em missão de recolha de informações.


Porém, o militar português terá respondido de forma evasiva ao indiano, tendo este alegadamente entendido que não haveria resposta portuguesa em caso de invasão, dado os postos defensivos não terem condições para enfrentar um ataque.


Aparentemente, as forças da União Indiana, tendo como referência esta afirmação, não contariam com resposta por parte dos portugueses. Foi dado grande relevo àquela afirmação, a qual chegou a ser divulgada pela rádio oficial indiana.


As forças indianas preparadas para a invasão deveriam contar com cerca de 4.500 homens.


17 de Dezembro

21:00 – A lancha Vega, faz-se ao mar no cumprimento da sua missão de patrulha.

23:00 – É enviada uma patrulha composta por quatro viaturas e duas peças de artilharia (supõe-se que se trate das peças de 87.6mm que estavam distribuídas às baterias de artilharia portuguesas) para a região leste da ilha.


Esta acção terá deixado as forças indianas confusas, pois não aguardavam movimentação portuguesa.


18 de Dezembro

01:30 – O posto da polícia de fronteira, na península de Gogolá é atacado por uma companhia inteira de atiradores do exército indiano. Em Gogolá, do lado português, estão treze homens. O ataque é rechaçado, mas as forças indianas voltam a atacar pelas 02:00 da manhã.

02:00 – A bateria de artilharia portuguesa recebe ordem para fazer fogo com as peças de 87.6mm e com morteiros, sobre a área das salinas para aliviar a pressão. O ataque português obriga as forças indianas a retroceder para as suas posições iniciais. Notou-se no entanto, que as armas foram carregadas várias vezes, sem que tenha sido possível disparar por causa de a munição já não se encontrar em condições.


Também às 02:00 da manhã, o posto de Passo Covo informa que a movimentação de muitas aves durante a noite denota a provável aproximação de forças inimigas.


03:00 – Pelo menos duas embarcações atravessam o rio em Passo Covo e desembarcam forças indianas. As tropas indianas são intimadas a parar e respondem com fogo.


04:00 – Um destacamento é enviado à península de Gogolá, para retirar os feridos e transportá-los para o posto médico. Em Gogolá, dos treze efectivos, dez estão feridos apenas três resistem às forças indianas.


05:30 – A artilharia portuguesa volta novamente a atacar as posições indianas na península de Gogolá, levando à debandada das forças inimigas.


Por volta das 06:00 da manhã, e ainda antes do nascer do sol, é avistada ao largo a silhueta de um grande navio. No entanto, o navio hasteou uma bandeira negra e vermelha, que as condições de luminosidade levaram a que fosse interpretada como sendo verde e vermelha. Nesse caso seria um navio português pelo que as tentativas de atacar o navio com artilharia foram canceladas.


06:30 – Em Passo Covo, o posto com os seus oito homens continua nas mãos dos portugueses e com o raiar do dia são encontradas embarcações abandonadas pelos indianos na sua retirada, ainda cheias de munições. É encontrado um ferido indiano, que é tratado e sinalizado com uma bandeira.


07:00 – Oito aeronaves indianas sobrevoam Diu e iniciam um bombardeamento, concentrando o fogo em Passo Seco e depois em Passo Covo. O ataque destruiu o emissor da rádio local de Goa, que tinha iniciado a sua emissão.


07:15 -  Após o ataque aéreo, os oito militares de Passo Covo retiram das suas posições.


07:30 – O destacamento de Malala, após o ataque aéreo, também retira para a fortaleza.


07:45 – A fortaleza de Diu é atacada pela primeira vez, sendo especialmente atingidas as áreas onde se encontravam as posições da artilharia portuguesa, que durante a noite tinham atacado as forças indianas.


Desde as sete da manhã até às 15:00 a aviação continuou a efectuar ataques que chegaram a ser feitos com intervalos de dez minutos.


09:00 – A lancha Veja, é atacada e destruída por caça-bombardeiros da União Indiana (ver referência a vida do Segundo-Tenente Oliveira e Carmo, no ponto 4.º da secção “O meu diário de bordo”). À mesma hora os últimos dois homens abandonam o posto de Gogolá. Mais tarde as tropas indianas declaram a sua surpresa quando sabem quantos militares se encontravam em Gogolá.


10:15 – O cruzador Deli também começou a bombardear as posições portuguesas.


12:45 – Um dos morteiros das forças portuguesas é atingido por um foguete lançado pela aviação indiana. Segue-se um incêndio e teme-se o perigo de explosão de munições. Pouco depois, é atingida uma viatura que transporta munições e foguetes de sinalização, dificultando ainda mais a circulação na fortaleza.


O receio de que uma reacção em cadeia leve à explosão do paiol da bateria de artilharia leva a que a fortaleza seja evacuada, operação que só fica concluída às 14:15 e decorre debaixo de fogo.


15:00 – Os ataques aéreos, que continuaram ininterruptos durante toda a manhã, são interrompidos, mas o bombardeamento naval a partir do cruzador Deli, continua.


17:00 – A força aérea indiana volta a atacar as posições portuguesas, desta vez atacando fortemente o aeroporto.


18:00 – O comandante do agrupamento analisou a situação e como resultado de várias análises e pressupostos, de onde se ressaltam a incapacidade de contactar com os vários postos, e a continuação da actividade da aviação inimiga, conta a qual nada podia fazer, concluiu que a força não se encontrava em condições de prosseguir uma resistência eficaz.


Um  grupo de militares dirige-se às forças indianas em Gogolá, atravessando o rio. Da reunião havida saiu um acordo provisório de cessar-fogo, em que as forças indianas se comprometiam a cessar fogo a partir das 08:00 da manhã do dia 19, caso cessasse o fogo da parte portuguesa.


19 de Dezembro

11:00 – A rendição formal que deveria ser realizada no largo frente ao Palácio do Governo, não pôde ter lugar, porque o dito palácio já se encontrava destruído, tendo sido transferida para a messe dos oficiais.

ConsequênciasSão várias as consequências da invasão de Goa por parte da União Indiana, e fizeram-se sentir a vários níveis.


A consequência mais imediata foi o inevitável aumento de popularidade do primeiro-ministro português, Oliveira Salazar, e do seu vetusto regime.


A invasão foi considerada como uma afronta, e a reacção popular só teve comparação com a reacção ao Ultimatum britânico no final do século XIX.


Uma vez que os governantes portugueses, na sequência do golpe de estado e da revolução que se seguiu em 25 de Abril de 1974, optaram por entregar todos os territórios portugueses, a invasão de Goa foi colocada no mesmo «saco», e por isso mesmo apresentada mesmo em Portugal como legítima.


Essa tentativa de dar alguma legitimidade à invasão levou à rejeição e a que a repulsa que o acto gerou em Portugal a seguir a 1961 fosse esquecida após 1974. A invasão de Goa foi aproveitada pelo regime português e serviu como um dos principais argumentos para suportar envio maciço de tropas para os territórios africanos, que se seguiu.


É a invasão de Goa que dá a Salazar, provavelmente, o argumento mais forte para justificar uma guerra que Portugal não começara, mas que teria naturalmente de travar. Sem Goa, não haveria justificação para a frase icónica «Para Angola e em força», que se destinava a demonstrar a determinação de Portugal lutar para evitar ver-se reduzido à sua minúscula dimensão europeia. Nesse caso, Portugal estaria inevitavelmente condenado à extinção, através da sua eventual inclusão numa outra qualquer realidade nacional ou plurinacional, onde seria mais tarde ou mais cedo destruído, mercê da sua irrelevância.


Goa foi uma das razões que explica e também justifica a capacidade de resistência demonstrada pelos portugueses em África durante a década de 60 e início da década de 70, que levaria à vitória militar sobre os chamados movimentos de libertação.


Essa clara vitória militar - que é hoje praticamente indiscutível – para quem raciocinar utilizando um mínimo de senso comum foi resultado de um esforço que provavelmente não teria sido possível sem o apoio popular que a invasão de Goa possibilitou ao regime.


Mas também para a União Indiana houve consequências que não se podem escamotear.


A primeira foi para o próprio primeiro-ministro Nehru, cuja imagem de pacifista caiu completamente por terra.


Nos Estados Unidos, a imprensa retratou-o como um dos maiores hipócritas do século, ao levar a União Indiana a atacar um território a que legalmente não tinha direito.


Também na Europa, a maioria das democracias colocou-se ao lado de Portugal. Esse apoio, que obviamente não se traduziu em mais nada que isso, demonstrou no entanto que as posições do governo português tinham a sua validade, e colocaram a Índia numa posição menos favorável.


Por seu lado, a Índia, que inicialmente julgava ter enfrentado mais de 10.000 militares portugueses, não entendeu a fraqueza das forças que tinha defrontado, tendo errado dramaticamente na análise das suas próprias capacidades e não analisando os seus insucessos.


A China

Mas mais grave para a Índia, foi a interpretação dada pelos chineses aos acontecimentos de Goa.

Até 1961, os chineses haviam considerado que a Índia não agiria militarmente contra Goa e que não tomaria acções militares nos territórios de Aksai-Chin e Arunachal Pradesh.


Tratava-se de regiões onde existia um «Status-Quo», e que a China considerava parcialmente como suas, por não estar de acordo com a linha de divisão estabelecida pelos ingleses. Naquelas regiões não tinha ocorrido nenhuma movimentação militar, mas a Índia tinha começado a colocar postos de controlo, tentando estabelecer uma política de facto consumado.


A China preferia não aparecer perante o mundo como uma potência agressora, ainda mais perante uma Índia pacifista, que tinha grande influência junto dos Não-Alinhados.


Mas a acção indiana contra Goa alterou completamente a opinião dos líderes chineses, que passaram a ver a Índia como um potencial inimigo agressivo.


Tendo isto em consideração, logo em 1962 - menos de um ano após a invasão de Goa - durante o conflito nas montanhas que separavam a Índia da China e correspondentes às regiões disputadas, as tropas indianas foram alvo de uma humilhante derrota às mãos do exército chinês, quando a China ocupou grande parte dos territórios de Aksai-Chin e Arunachal Pradesh.

< O próprio Nehru terá reconhecido, pouco antes de morrer, que a invasão de Goa fora o maior erro da sua carreira política.
Como consequência, podemos considerar que foi aberto o precedente de uma nação surgida a partir da colonização britânica ter violado as regras pré-estabelecidas de que, para aceder à independência, as fronteiras estabelecidas pelas potências administrantes deveriam ser respeitadas O papel do Segundo-Tenente Oliveira e Carmo no último cerco de Diu - 1961