quarta-feira, 4 de junho de 2014

Mais uma nesta..Parolice Nacional





   Estávamos em 1998, Fernando Gomes presidia à Câmara Municipal do Porto, Manuel Maria Carrilho reinava como ministro da Cultura e Manoel de Oliveira ia fazer 90 anos. Para aquelas almas profundamente imbuídas de paixões culturais nada melhor do que fazer erguer um monumento de betão – mas com pedigree cultural, pois o desenho seria de Souto Moura – com o pomposo nome de “Casa do Cinema”. Escolheram a melhor e mais refinada zona da cidade do Porto – a Foz, como não podia deixar de ser – e lá ergueram as paredes do que seria a futura residência do cineasta (seria ele um sem-abrigo desconhecido?) e, ao lado, as arrecadações para guardar o seu espólio.

A obra levou uns anos a fazer – afinal Portugal nunca deixou de ser Portugal – e, quando ficou pronta, a câmara não se entendeu com o cineasta. A lindas paredes ficaram ao abandono, ninguém parece ter estado muito incomodado, os anos passaram, tudo se foi degradando, e entretanto Manoel de Oliveira somou mais dez anos, tornou-se centenário, nunca achou que tivesse de mudar os tarecos para um casa nova e acabou a entender-se com a Fundação de Serralves, onde entretanto está a surgir outra casa Manoel de Oliveira, esta da autoria de Siza Vieira (noblesse oblige).
Chegamos assim ao ponto de, dez anos depois, o “betão cultural” que custou mais de dois milhões de euros – não se indignem já, foi para “investimento”, ainda para mais um “investimento cultural”
 ir agora à praça por apenas 1,5 milhões.
É o que se chama uma história exemplar da saloiice nacional, do encantamento parolo com certos “símbolos da cultura” e da leviandade com que se gasta o dinheiro dos contribuintes.
Ao menos que corra bem o leilão.

PS: Entretanto já se realizou o leilão mas não teve qualquer comprador. 

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