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domingo, 15 de outubro de 2017

Operação Base dos Macondes ....



OPERAÇÃO BASE DOS MACONDES- 
C. CAÇ. 1558-
                                  Por: Alvalade-C. C AÇ 1558



Corria o dia 22 de Agosto de 1967 e ao fim da tarde recebemos ordens para nos prepararmos para mais uma operação a partir de Nova Coimbra, província do Niassa- Moçambique.

Ao escurecer lá iniciámos a caminhada à procura do tal aquartelamento da Frelimo a que chamámos dos "Macondes".

Foi-nos pedido pelo capitão que fizéssemos o mínimo de ruído possível, já que para o bom êxito  da operação seria a surpresa a principal condição. A primeira etapa , foi o quartel do Lunho, onde descansámos debaixo de chuva torrencial.Fomos convidados a usar as casernas militares lá instaladas, que recusámos, pois nas camas os percevejos eram mais que muitos. Quem escreve esta narração, com os companheiros:...o Palma, o Constantino e o Paulino, fomos procurar um local onde nos instalássemos. Quando o achámos lá nos  deitamos cada um,  em cima de seis tijolos para a agua que chovia pudesse escorrer por baixo de nós. Passados que foram cerca de duas ou três horas, foi dado a ordem para retomarmos a caminhada até ao objectivo. Chegados lá, ainda escurecia, um dos nativos que fazia parte dos carregadores que transportavam o material radio, foi chamado ao capitão, para informar onde estavam  as armadilhas que estavam instaladas à volta do acampamento. Depois de detectadas e desarmadas , esperámos mais algum tempo para fazer o ataque. Quando começou a clarear o  capitão deu ordens para se formar dois flancos em V  e uma secção de assalto, comandada pelo próprio capitão.

A ordem de fogo seria:... quando ele lançasse a primeira granada e assim foi. Eu que estava na linha da secção de assalto, mais três ou quatro africanos, e quando se dá o rebentamento da primeira granada , começámos nós a ser fuzilados por muito fogo e alguns rebentamentos. Comecei logo a ouvir gritos de feridos e dois dos africanos que estavam comigo também foram  feridos. Gritei para que se deitassem por detrás das árvores e eu já estendido no chão não percebia de onde é que poderia vir tanto fogo. Levantei a cabeça e rodei o pescoço para o lado esquerdo,para perceber o fogo.Quando olhei de novo para a frente, senti uma cacetada na cabeça e pensei ser algum fragmento de pedra ou madeira projectado pelas balas que silvavam sobre nós. O capitão dá ordem para cessar o fogo e é quando se ouvem mais pedidos de ajuda  dos já numerosos  feridos.Foi o resultado da fuzilaria sobre nós. Quando me levantei do chão, já o sangue me  escorria pelo corpo abaixo.Então ouvi o capitão sussurrar  para o alferes P..... o Alvalade está arrumado. Mas, não estava, ainda fiz a mensagem (Zulu), a pedir a evacuação dos feridos e fui na ultima leva dos dois helicópteros que nos levaram para o hospital de Vila Cabral.Ás vezes ainda penso,que tive a sorte talvez, de se o único soldado na guerra de Moçambique que levou um tiro na cabeça e voltou vivo para a Metrópole.Mas  levei mais de um mês , e ao acordar durante a noite, a primeira coisa que fazia   era desviar a cabeça para o lado, a  tentar-me desviar do tiro.

Da nossa estadia em Vila Cabral por sermos feridos, um dia fomos (confrontados eu e o Palma) numa rua de Vila Cabral, com o comandante de Sector e o seu ajudante,  a uma distância razoável, por nós não lhe batermos a continência nos mandou chamar. O homem alterado faz-nos um sermão e sempre  dizendo, que tinha-mos o direito de conhecer o nosso comandante de Sector. Ao que nós respondemos...se o senhor andasse por os locais , onde arranjámos estes ferimentos (mostrei-lhe o penso da ferida na cabeça) nós de certeza que o conhecíamos. O homem ainda lamuriou, mas  mandou-nos embora. E nessa noite, mesmo ferido comecei a fazer reforços.Mas quando descobri que  não estava na lista de chamada ao recolher  da noite, comecei a baldar-me quando me apetecia e acabaram-se os reforços. E isto durou  mais de um mês, já que o ferimento deu para arranjar os dentes e tratar de todas as   doenças que inventei.

Passados alguns meses fomos fazer outra vez a mesma operação à tal base dos Macondeblues. Se calhar para confirmar se já estava activa. Já perto do objectivo o capitão perguntou-nos a mim e ao Palma se valia a pena irmos ao objectivo, o que nós respondemos que sim. Ficámos com a impressão que nos estava a pôr à prova já que fomos os dois feridos na anterior operação, no mesmo local !......


  José do Rosário ( 23 de Agosto de 1967 in Moçambique )

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