Apontamentos do Padre Jorge

  Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.


50 textos do padre Jorge de Oliveira disponíveis para leitura e consulta. Alvalade Informa









memoriafontedabica   

 A freguesia de Alvalade tem bons e abundantes nascentes de água potável. Somente para os lados do Carapetal e da ribeira de Messejana há nascentes de água salgada. Em 1908, na Vila havia apenas 3 poços de água não potável e hoje há mais de 30. Em 1908 Alvalade abastecia-se de água potável na fonte Branca, que tinha as suas bicas de pressão alimentadas por um pequeno nascente de boa água; na fonte das Bicas, poderoso nascente de boa qualidade, localizada na Cerca da Bica, aonde havia duas bicas. Quando se construiu a linha do Sado, esta fonte foi transferida para o local onde estava a Fonte Branca, e aí se encontra actualmente. Havia ainda água potável no “Poço de Nossa Senhora”, ao Sul da vila, nascente quase superficial, de que, ainda hoje, muita gente se abastece. Estas águas são, como quase todas daqui, um tanto “ácidas”.
Em geral, a água dos poços encontra-se a 12 metros de profundidade, e é salobra. Como nem todos podem lavar roupa no lavadouro, vão lavá-la às ribeiras, o que conspurca as águas, tornando-as impróprias até para os animais. As águas da ribeira do Roxo, estão inquinadas pelas lavagens dos minérios das minas de Aljustrel, de modo que não só a fauna e a flora do leito da ribeira se perdeu, como também a fauna piscícola a jusante, até Alcácer do Sal.
A Estação de Ermidas é também muito abundante em água potável. A estação do Caminho de Ferro tem um poço que abastece todos os serviços de máquinas, fornecendo também água à Funcheira, durante o Verão. Há ali muitos poços particulares. Em 1944, foi ali construída fonte pública para abastecimento da população.
Alvalade, vila - Fontes públicas: Fonte Branca, junto ao chafariz com duas bicas; Estação dos Caminhos de Ferro, 1 bica; Poço de Nossa Senhora.
Ameira: Chafariz
Vale de Santiago: Chafariz
Borbolegas: Água férrea
A água da Caniceira é transportada para Ferreira do Alentejo e Beja e vendida em benefício de estabelecimentos de beneficência.

_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.

Contratos da Páscoa


Na quarta-feira de cinzas, logo no começo da Quaresma, fazem-se os contratos entre rapazes e raparigas. Estes contratos consistem no seguinte: no meio do dia e ao pôr do sol, todos os dias, cada um deles esconde-se e procura colher de surpresa o parceiro (de contrato), dizendo-lhe, subitamente “reze”.
E o colhido é obrigado a rezar, embora mentalmente, o Pai Nosso ou a Ave Maria. No sábado de Aleluia, o que foi colhido, além da reza tem de dar ao outro as amêndoas.
São interessantes estes contratos pela diligência que ambos fazem para se esconder, havendo ocasiões em que andam muito tempo no jogo das escondidas para evitarem o “reze”.



A capela do Espírito Santo



Na praça, a norte dos Paços do Concelho e do Pelourinho, já na Rua de Lisboa, existia uma ermida dedicada ao Divino Espírito Santo, contígua à travessa do mesmo nome, que ainda existe e descia em declive suave até à Fonte Branca (a actual Fonte da Bica), seguindo daí em carreteira, até ao Porto de Beja, sendo esta a melhor entrada para a Vila.
A mencionada ermida consistia num velho casarão, sem arte alguma, onde se erguia um pequeno altar. Tinha festa no dia próprio, que servia de pretexto para a distribuição do Bodo que consistia em pão, carne e vinho, que era distribuído não só aos pobres mas também aos remediados e era fornecido pelos lavradores abastados que ofereciam: reses, chibatos, farinha, etc. O terramoto de 1755 arruinou muito esta capela, cuja porta era voltada ao poente e, não tendo sido reparada, o seu terreno foi mais tarde aforado pela Junta de Freguesia, sendo hoje a residência particular de um proprietário.


_Apontamentos históricos do Padre Jorge de Oliveira (1865/1957), pároco de Alvalade entre 1908 e 1936, para uma monografia que não chegou a publicar.



A Comenda de Alvalade

Após a tomada do Castelo de Aljustrel dos mouros, por D. Sancho II, em 1234, todo este território foi doado pelo rei à Ordem Militar de Santiago, que emancipando-se da espanhola a que estava subordinada, devido aos esforços de el-rei D. Dinis, se reorganizou em 1322, dividindo o seu domínio territorial em 60 comendas, tendo uma delas a sua sede em Alvalade, e precisamente com a área e confrontações actuais.  
As características das comendas do Campo de Ourique, que eram 15, deram azo a que se regulassem por forais quase idênticos e pelas chamadas leis costumeiras.
Logo que D. Paio Peres Correia aceitou a doação de D. Sancho II a favor da Ordem de Santiago de que ele era Comendador em Alcácer, deu forais a algumas vilas do que há notícia; tendo, possivelmente, também dado foral a Alvalade, pois era pelos forais ou pelas leis costumeiras que se fazia a administração destes territórios. O foral concedido a Alvalade por D. Manuel I, deixa perceber que havia um foral anterior, ou comum a todo o Campo de Ourique, ou singular.
O cargo de Comendador esteve sempre na ilustre família dos Sousas. Em 1471 e 1475 era comendador de Alvalade, João de Sousa, filho de Martim Afonso de Sousa, 3º senhor de Mortágua, Ferreira e Represas, sendo, portanto, João de Sousa, comendador de Alvalade, Ferreira e Represas.
Em 1516, era comendador de Alvalade, Cristóvão Correia. Sua filha, D. Filipa de Atayde casou em 1516, com Álvaro de Sousa, veador da rainha D. Catarina, mulher de D. João III. Deste casamento nasceram vários filhos, e entre estes D. Catarina de Atayde que Camões imortalizou nas suas poesias dedicadas a Natércia. 
Em 1471 João de Sousa, filho de Martim Afonso de Sousa, 3º senhor de Mortágua e de onde procedem os títulos: Conde de Miranda do Corvo, Marquesado de Arronches e Ducado de Lafões, tinha já em 1471 a Comenda de Ferreira, Represas e Alvalade, com as rendas da aldeia de Colos.
Em 1542, um Martim Afonso de Sousa, foi vice-rei da Índia, para onde seguia, acompanhado de S. Francisco Xavier. Filipe I deu a comenda de Alvalade a Henrique de Sousa, 1º Conde de Miranda, como recompensa de ter seguido o seu partido.
No Dicionário Histórico de Portugal, tratando de Henrique de Sousa, 1º Conde de Miranda e seus descendentes, diz-se que, tomando o partido de Espanha após a derrota de Alcácer Quibir, quando o rei Filipe II de Espanha entra em Portugal, lhe fez mercê da Comenda de Alvalade, no Campo de Ourique, pertencente à Ordem de Santiago.
Em 1551, por morte do Mestre D. Jorge de Lencastre, Duque de Coimbra, reinando D. João III, uniram-se todos os Mestrados, in perpectuum na Coroa, por Bula do Pontífice Júlio III, de 4 de Janeiro de 1551. Depois desta união, em algumas comendas, andaram separadas as jurisdições. A magistratura judicial, exercida até D. João III, pelos juízes municipais eleitos pelo concelho e aprovados pelo Comendador, como representantes do rei ou pelo donatário, foi desde então exercida por ministros (juízes) formados, de nomeação real cuja alçada tinha mais amplitude que a dos juízes municipais ou ordinários (Annais do Município de Santiago do Cacém, fol. 22 e 23).
Alvalade honra-se por a sua comenda ter pertencido à ilustre família dos Sousas, ligada a tantos feitos notáveis da História de Portugal.

O património da Santa Casa da Misericórdia de Alvalade

misericordiaInventário sobre a Santa Casa da Misericórdia de Alvalade, datado de 1860.

Bens Móveis
Um Livro de Eleições, termos de mesa e algumas arrematações, que teve principio em 1698 (é o mais antigo deste inventário).
- Um Senhor Morto, um crucifixo, Santo Amaro e Nossa Senhora da Conceição.
Do Hospital (do Espírito Santo) – um colchão de lã, um enxergão velho, seis lençóis, um travesseiro velho, uma fronha velha, duas mantas de lã, um cobertor, duas cobertas de chita, um guarda-cama, dois pratos de estanho e uma tumba.
Pratas
Um cálice, com patena e colher, lavrado, que se arma em custódia. Pesa, com os vidros, quatro marcos, três onças e cinco oitavas e meia.
- Uma coroa antiga, lavrada, que foi dourada, com o peso de treze onças e sete oitavos.
Bens Imóveis – Prédios
A Igreja (da Misericórdia), na Praça, com o quintal na retaguarda.
- Um casarão aonde foi a igreja do Espírito Santo.
- Uma morada de casas, na Rua da Cruz desta vila, que são três casas térreas e servem de hospital: Partem do Nascente, com casas de Francisco António Aragão; pelo Norte, com a Rua da Cruz, pelo Sul, com a Rua das Estalagens; e pelo Poente, com a Estalagem de João Travassos.
- Um celeiro situado na Rua das Estalagens (actual Rua 31 de Maio de 1834), desta vila, que parte, do Nascente, com casas de Joaquim Pedro; pelo Norte, com casas de Francisco António Aragão; pelo Sul, com a Rua das Estalagens e pelo Poente, com o Hospital.
 Foros
Um prazo fateusim, que é uma courela, chamada dos “Asnos” nas várzeas desta Vila que consta de terras de semear. Parte do Nascente e Sul com o Pego Verde; Norte, com a estrada que vai para Santa Luzia; do Poente, com a estrada dos Coitos, pela qual paga José Vicente Serrano, morador em Grândola, o foro anual de quatro alqueires de trigo.
- Estão mencionados neste inventário, 37 foros.

A igreja de Nª Srª da Azinheira do Roxo

roxo                                                                                                                    Na Herdade do Roxo, havia um templo de uma só nave, com sua capela-mor abobadada, sacristias e baptistério. Foi durante os séculos XVII, XVIII e parte do XIX, sede de uma freguesia – “Nossa Senhora da Conceição da Azinheira do Roxo”.
Pertencia à Ordem Militar de Santiago, sendo o portal gótico, simples, encimado pela Cruz da Ordem. Teve na frente um grande alpendre e o adro, com alguns cruzeiros. Nele e na igreja eram feitos os enterramentos. O pároco e o ermitão, tinham residência independente, com forno e cavalariça. O pároco tinha uma terra que levava 3 alqueires de semente. Esta paróquia que foi instituída após o Concílio de Trento, foi extinta em 1835 e anexa à de Alvalade.
Em 1905 manifestou-se incêndio na mesma igreja, acabando ali o culto. O proprietário da Herdade apoderou-se de tudo, fazendo dos restos da igreja um barracão para serviços agrícolas. Tendo passado a outro dono, o actual proprietário, derrubou tudo e até a própria pia baptismal está servindo de reservatório para cal. O Ministério das Finanças instaurou processo de reivindicação de posse, pois os bens das Ordens Militares, em 1834, passaram para o Estado, mas parece ter havido composição (numa certidão passada pelo Padre Francisco Guerreiro Metelo, freire professo da Ordem de Santiago, capelão da Capela curadora de Nossa Senhora do Roxo, anexa à Matriz da Vila de Alvalade, declara-se que: “a dita capela não tem rendimentos para haver o que faltar para acabar de pagar a conta da despesa de ornamentos feita em 12 de Janeiro de 1725″).
Em 1943, o proprietário da Herdade do Roxo, Manuel Colaço Mendes, mandou derrubar os restos da igreja paroquial (de Santa Maria do Roxo) que ainda se compunha de nave, capela-mor, sacristia e baptistério aproveitando os materiais de construção para outras edificações no Monte. No tempo do antigo dono, José de Mascarenhas Pacheco, houve litígio entre a Fazenda Nacional, como possuidora dos bens da antiga Ordem Militar de Santiago e o referido Pacheco que se apossou da igreja e terreno adjacente. Fez testamento contemplando a Misericórdia de Santiago do Cacém, presumo que para compensação do que absorveu.

Os morgados de Gaspeia

trilhoQuinta da Gaspeia, ano de 1665
Belchior Moreira de Aragão, Ouvidor dos Verdes e Montados e Tesoureiro Geral da Décima na Comarca do Campo de Ourique, e sua mulher D. Mariana de Brito Castanheda, moradores em Messejana, por escritura feita em 1665, instituíram um morgado nas propriedades, situadas na freguesia de Alvalade: Quinta da Gaspeia, Herdade da Corredoura e Courela do Pego Verde.
O primeiro administrador deste vínculo foi seu filho António de Brito e Castanheda e o sexto e último, José Francisco Moreira de Brito Velho da Costa.
Havia, nesta quinta (Gaspeia), uma capela pertencente aos Morgados. Era de pequenas dimensões, sendo o seu Orago, S. José. Estava situada do lado esquerdo da estrada de Alvalade nas Almargens, entre a estrada e a ribeira. Havia nesta quinta um grande pinhal de árvores colossais.
O solar dos Morgados, em Messejana, foi reparado de 1820 a 1825. O tabuado dos sobrados, de largas dimensões, foi levado de Gaspeia. Foi vendido em 1860 a 1863. O Morgado José Joaquim Moreira, Sargento-mor desta Vila, dono da Courela da Coroa, em 1761, possuía umas casas nesta vila, que foram arruinadas pelo terramoto de 31 de Março de 1767 .

A ermida de S. Sebastião

Nos olivais a Sueste da Vila, existia uma ermida dedicada ao mártir S. Sebastião. Era de uma só nave, com capela-mor abobadada, com um pequeno altar e porta voltada ao poente. Tinha a sua mordomia e, todos os anos, a sua festa. A imagem do Santo era conduzida processionalmente, na véspera, para a Matriz onde havia Missa Solene e procissão pelas ruas da Vila, voltando, no dia seguinte, para a sua capela. Os constantes arrombamentos da porta e desacatos no interior da capela, motivaram a retirada da imagem para a igreja paroquial, com os poucos utensílios do culto lá existentes.






Igrejas e culto religioso

abóbadaAlém da igreja matriz, sob a invocação de Nª Srª da Conceição da Oliveira, o culto religioso era exercido, na área da freguesia, na igreja da Misericórdia, sita na Praça desta Vila de Alvalade, templo de uma só nave, coberta de abóbada, caída em 1929, com a sua capela-mor e um único altar, tendo a sacristia ao lado direito uma casa contígua para arrecadação da tumba e insígnias nos funerais dos irmãos falecidos e também no dos pobres falecidos no hospital ou sem assistência.
Na mesma praça, a norte dos Paços do Concelho e do Pelourinho, já na Rua de Lisboa, existia uma ermida dedicada ao Divino Espírito Santo, contígua à travessa do mesmo nome, que ainda existe e descia em declive suave até à Fonte Branca, seguindo daí em carreteira, até ao Porto de Beja, sendo esta a melhor entrada para a Vila. A mencionada ermida consistia num velho casarão, sem arte alguma, onde se erguia um pequeno altar. Tinha festa no dia próprio, que servia de pretexto para a distribuição do Bodo que consistia em pão, carne e vinho, que era distribuído não só aos pobres mas também aos remediados e era fornecido pelos lavradores abastados que ofereciam reses, chibatos, farinha, etc.
O terramoto de 1755 arruinou muito esta capela, cuja porta era voltada ao poente e, não tendo sido reparada, o seu terreno foi mais tarde aforado pela Junta de Freguesia, sendo hoje a residência particular de um proprietário. Havia também na Rua de S. Pedro, no “Cerrado de S. Pedro”, contíguo ao Rossio da Vila e junto à estrada que conduz à Fonte do Pote, uma ermida consagrada ao Príncipe dos Apóstolos, que já estava muito arruinada em 1749, tinha a sua irmandade e alguns bens.
Em 1854, neste mesmo local, e em parte do referido cerrado de S. Pedro, foi construído, por subscrição pública, o cemitério da freguesia, visto terem sido proibidos os enterramentos nas igrejas. Foi benzido pelo pároco de então, o Padre Bernardo António de Sousa. Tem portão de madeira e duas janelas laterais com gradeamento de ferro e ao fundo uma pequena capela, com altar, servindo para as encomendações e depósito dos cadáveres. Lateralmente à capela, havia dois ossários, um dos quais foi aproveitado para nele se construir uma casa, com dois compartimentos, para arrecadação dos esquifes e ferramentas para o serviço do cemitério. Como já era pequeno, foi ampliado com o restante terreno do antigo “Cerrado de S. Pedro”. Nos olivais a Sueste da Vila, existia uma ermida dedicada ao mártir S. Sebastião. Era de uma só nave, com capela-mor abobadada, com um pequeno altar e porta voltada ao poente. Tinha a sua mordomia e, todos os anos, a sua festa. A imagem do Santo era conduzida processionalmente, na véspera, para a Matriz onde havia Missa Solene e procissão pelas ruas da Vila, voltando, no dia seguinte, para a sua capela. Os constantes arrombamentos da porta e desacatos no interior da capela, motivaram a retirada da imagem para a igreja paroquial, com os poucos utensílios do culto lá existentes. Está em ruínas.
Também a Sueste, na margem esquerda do Sado, em Gaspeia, havia uma ermida dedicada a S. José, de que já não há vestígios. Pertencia aos morgados de Gaspeia. Na Herdade do Roxo, havia um templo de uma só nave, com sua capela-mor abobadada, sacristias e baptistério. Foi durante os séculos XVII, XVIII e parte do XIX, sede de uma freguesia – “Nossa Senhora da Conceição da Azinheira do Roxo”. Pertencia à Ordem Militar de Santiago, sendo o portal gótico, simples, encimado pela Cruz da Ordem. Teve na frente um grande alpendre e o adro, com alguns cruzeiros. Nele e na igreja eram feitos os enterramentos. O pároco e o ermitão, tinham residência independente, com forno e cavalariça. O pároco tinha uma terra que levava 3 alqueires de semente. Esta paróquia que foi instituída após o Concílio de Trento, foi extinta em 1835 e anexa à de Alvalade. Em 1905 manifestou-se incêndio na mesma igreja, acabando ali o culto. O proprietário da Herdade apoderou-se de tudo, fazendo dos restos da igreja um barracão para serviços agrícolas. Tendo passado a outro dono, o actual proprietário, derrubou tudo e até a própria pia baptismal está servindo de reservatório para cal. O Ministério das Finanças instaurou processo de reivindicação de posse, pois os bens das Ordens Militares, em 1834, passaram para o Estado, mas parece ter havido composição (numa certidão passada pelo Padre Francisco Guerreiro Metelo, freire professo da Ordem de Santiago, capelão da Capela curadora de Nossa Senhora do Roxo, anexa à Matriz da Vila de Alvalade, declara-se que: “a dita capela não tem rendimentos para haver o que faltar para acabar de pagar a conta da despesa de ornamentos feita em 12 de Janeiro de 1725″).
Na Ribeira do Roxo, no terreno denominado Herdade ou Courela do Valdez existiu, antes de 1649, durando até 1890, uma capela cujo padroeiro era S. Roque. Era, como as outras capelas, de uma só nave, sem arte alguma digna de menção. Tinha mordomias e, quase todos os anos ali se fazia a festa do padroeiro, em 16 de Agosto, com grande afluência de povo, pois o local era muito pitoresco e próximo da ribeira, que nesse tempo apresentava luxuriante vegetação em que predominava o loendro (loendrum roseum), vegetação que acabou logo que a Mina de Aljustrel começou a despejar para esta ribeira as águas da lavagem dos minérios. Flora e fauna, tudo se foi. Desta capela poucos vestígios existem. Numa série de artigos que escrevi para o periódico “Nossa Terra” que, em tempo, se publicou em Santiago de Cacém, está um sob a epígrafe “Coisas do Século XVII” onde se descreve uma festa ali realizada – em S. Roque – em 1650. No livro das Vereações do Concelho de Alvalade, com princípio em 26 de Julho de 1816 e encerramento em 15 de Maio de 1836, existente no Arquivo da Câmara Municipal de Aljustrel, ali, a fols. 228, se diz o seguinte: “Foi presente em sessão camarária em 29 de Novembro de 1835, um ofício do Governador do Bispado de Beja, de 20 do mesmo mês, e uma Portaria do Governo de S.M. de 26 de Outubro, consultando a Câmara, se dava ou não o seu voto para a anexação da freguesia do Roxo à de Alvalade. A Câmara, ouvindo os paroquianos de ambas as freguesias, foi de acordo que a junção se fizesse, sendo, em seguida assinada” (1835).
Quando em 1836, foi extinto o Concelho de Alvalade, passou esta freguesia para o Concelho de Messejana, que sendo também extinto em 1855, transitou para o Concelho de Aljustrel. Foi durante a sua permanência neste Concelho que, pelo Governo Civil de Beja, foram extintas a (Santa Casa da) Misericórdia e as Confrarias, sendo os bens da primeira incorporados nos da Casa Pia de Beja e os destas, à Junta da Paróquia de Alvalade. Esses bens, sendo quase todos foreiros, foram vendidos e o seu produto convertido em títulos do Estado, averbados naquela corporação. Em todas as igrejas ou capelas existentes na área desta freguesia, se faziam, periodicamente, as festas dos respectivos oragos, com mais ou menos solenidade. Essas festas eram sempre pretexto para a reunião não só dos devotos, mas também de forasteiros que aproveitavam o ensejo para se encontrar com pessoas amigas ou conhecidas e também para se divertirem, porque eram frequentes as cavalhadas e as touradas, dada a abundância de gado adequado que lhes permitia tais divertimentos. Havia vacadas no Roxo, em Vale de Zebro, nos Coitos, em Conqueiros, nos Almargens, na Ameira, nas Borbolegas, na Defesa, no Faial e na Boavista e como nessas já recuadas épocas, os proprietários viviam e residiam nas suas Herdades e quase todos eles possuíam excelentes montadas, de que faziam gala e que lhes serviam para estes desafios. A Igreja Matriz pertencia à Ordem Militar de Santiago da Espada, tinha sobre a porta principal de estilo gótico, de mármore cinzento, uma fogaça e sobre esta um rectângulo um pouco semelhante a um escudo, com as insígnias da Ordem: no meio do campo, a Cruz da Ordem; nos cantos dextro e sinistro do Chefe (?), uma vieira em cada, e nos cantos dextro e sinistro da ponta, em cada um, um bastão da Ordem, os quais, mal desenhados, mais se parecem com peças de artilharia. O Prior e os dois beneficiados adstritos à Matriz, eram freires professos da Ordem e por ela subsidiados pelas rendas da Comenda e cujo Comendador foi sempre da ilustre família dos Sousas. Por este motivo a Matriz, a Misericórdia, as Capelas, Irmandades, Confrarias e Mordomias tinham duas classes de visitadores: O Ordinário e o Juiz da Ordem, como se deduz e verifica nos respectivos livros das Visitações. Havia na Sacristia da Matriz um pequeno quadro de madeira, pintado de branco, com os seguintes dizeres ao lado esquerdo: O Rev. Prior – O 1º Beneficiado – O 2º Beneficiado. Diante de cada um destes dísticos havia um furo aonde se colocava uma cravelha. Servia esta para indicar qual deles estava de serviço durante aquela semana. Na parede da Sacristia havia uma pequena sineira, com sineta, que servia para chamar o pároco ou os beneficiados para os serviços urgentes. Fariam o serviço do Coro em dias determinados e os sinos tocavam a matinas e vésperas. A Irmandade do S.S.mo que dispunha de meios e auxiliada pelos paroquianos abastados fazia sempre as solenidades da Semana Santa para o que convidava, além do clero da freguesia e do pároco do Roxo, dois frades franciscanos do Convento de Messejana. Faziam a bênção e procissão dos Ramos, a Missa, desnudação dos altares, exposição do SSmo no trono e o Lava-pés, na Quinta-feira; na Sexta a Missa, Adoração da Cruz e procissão do Enterro do Senhor, e no Sábado, a Aleluia. Na 5ª e 6ª feira, havia, à noite, os ofícios solenes e no Domingo de Páscoa, a Missa Pascal com a respectiva procissão e sermão. Na Quinta-feira havia o sermão do Mandato e na Sexta o sermão da Soledade. Nesta procissão era conduzida a imagem do Senhor Morto e da Senhora da Soledade. Iam no cortejo a Verónica e os irmãos da Misericórdia, com as suas opas negras, empunhando uma tocha de cera. À frente do cortejo ia o porteiro da Misericórdia, com a matraca. Incorporavam-se nesta procissão os juízes, os oficiais da Câmara, com o seu escrivão, o notário. Enfim, todos os que desempenhavam cargos públicos. O esquife ia debaixo de um pálio roxo e à frente, após o porteiro da Misericórdia, seguia a bandeira desta e o guião das Almas. As várias procissões que aqui se realizaram no lapso de 30 anos, de 1908 a 1935 salientaram-se sempre pela boa ordem e pelo cuidado, asseio e imponência com que tudo e todos se apresentavam, sendo sempre admirados com prazer e respeito pelos paroquianos e pelos forasteiros que as presenciavam. A última procissão realizou-se em 1935, fazendo-se também a comunhão solene das crianças que se incorporaram, levando a sua bandeira, com o andor de Nª Sra. Do Carmo. Foi um número sensacional, aqui desconhecido, que não só agradou mas chegou a entusiasmar pela forma como foi apresentado. Estas solenidades eram sempre acompanhadas por música que, nos primeiros anos, era a filarmónica de Santa Luzia. Nos últimos anos vinham as filarmónicas de Grândola ou de Alcácer.
Domingo de Ramos
Ao 2º toque para a missa, começavam a entrar os fiéis, velhos e novos, quase todos com o seu ramo florido, que depositavam numa mesa ou credencia, colocada na capela-mor, próximo do altar, para serem benzidos na altura própria.
Os ramos compunham-se, geralmente, de flores do campo, de rosas e lírios, alecrim, rosmaninho, etc. O tesoureiro quase sempre guarnecia os altares com folhas de palmeira que, no fim, eram distribuídas inteiras ou desfolhadas, pelos circunstantes que as pediam. Estas flores e palmas eram, cuidadosamente, guardadas até igual dia do ano seguinte, como penhor da benevolência de Deus.

Ascenção
Nos dias em que, após a Missa, se celebrava a “Hora de Noa”, duas crianças percorriam a igreja, lançando pétalas de rosas nos altares e sobre o celebrante e os fiéis.
De tarde, muitos grupos percorriam os campos colhendo espigas de trigo, papoilas e ramos de oliveira, que simbolizam o pão, a carne e o azeite, para terem abundância de tudo isto em suas casas.

O Cemitério público

Este terreno ou “Cerradinho” pertencia às freiras filhas do Capitão Dr. Domingos Ribeiro de Lima (consta do Livro de Mordomia de S. Pedro) em 1763. Confrontava, pelo nascente, com a estrada que vai da Rua de S. Pedro; pelo poente, com terras do concelho desta vila; pelo norte, com o cerrado do Beneficiado Inácio da Costa Gonçalves; pelo Sul, com o cerrado das freiras que são filhas de Domingos Ribeiro de Lima.
Em 1942, juntou-se-lhe o restante terreno que ficava do lado Sul. Com a vedação e a terraplanagem, gastaram-se cerca de vinte e dois contos. Foi a parte agora adicionada, benzida pelo padre José Guerreiro Horta, pároco de Santiago do Cacém e interino de Alvalade. À frente de um cortejo formado pelas crianças das escolas, professores, crianças da catequese e catequistas, autoridades e povo.
O primeiro cadáver enterrado no terreno adicionado foi o de Isabel Batista Borges, de 74 anos, casada com o alfaiate Francisco Henriques, falecido em 18 de Julho.
Antes de 1854, os enterramentos eram feitos na igreja paroquial e no adro da mesma. Ainda hoje se vêm, no sobrado da igreja, os apainelados formados pelos taipais de madeira que indicavam os respectivos covais.

O Barradas

A carne e o pão eram a alimentação predominante da população. O peixe raramente entrava em casa. Quando, em Sines, havia abundância de sardinhas, os sardinheiros apareciam com o seu macho e sonora guizeira, com duas canastras presas ao albardão, e todos ficavam sabendo que nesse dia, ao menos, podiam variar de alimento. Havia há uns bons 25 anos um sardinheiro de apelido “Barradas” que tinha o monopólio da condução da sardinha para Alvalade. Ao entrar na Vila pela Rua de Lisboa, ali soltava o primeiro pregão: “Eh sardinha fresca”. Todos à uma diziam:“(…) aí está o Barradas”. E as mulheres acudiam sempre com os pratos ou travessas para receberem as sardinhas que ele contava sempre a cinco. O macho estava tão adestrado que ia caminhando, sempre devagar, e somente parava às portas onde via o ramo pendurado, pois já sabia que aí o seu dono tinha longa pausa…
Após duas ou três pausas, variava o pregão; já não era “sardinha fresca…” mas “Libras e libras! Viva a Carta Constitucional e Viva Dom Carlos que é Rei de Portugal” e, ao cabo de tanto vivório, o bom do Barradas adormecia ao sol, coberto de moscas, com o macho ao lado, até que, na madrugada seguinte, voltava para Sines. O peixe grado ainda não tinha entrado nos hábitos da culinária de Alvalade. Até o fiel amigo, só aparecia raramente e como hóspede. E, no entretanto, nas tradições da população marginal das ribeiras, estão uma ou duas pescarias anuais. As ribeiras são, geralmente, muito piscosas. No Verão, o curso de água suspende-se e reduz-se aos pegos, onde o peixe se recolhe e reproduz. Depois das primeiras águas e ligada e estabelecida a corrente, combina-se a pescaria feita com redes, tresmalhos e outras artes de pesca. Apanhavam-se muitas dezenas de quilos de barbos, robalos e pardelhas que eram distribuídos pelos improvisados pescadores. Em local aprazado era feita grande caldeirada e todos abancavam acompanhados do odre ou borrachas cheias do falerno local e, no regresso, voltavam sempre “pesados”. Outros também aqui se dedicavam à pesca dos cágados de que faziam excelente sopa. Havia também no Sado, entre os Coitos e o Porto Ferreira, moluscos de água doce, de concha muito parecida com a do mexilhão, mas nunca pude ver os moluscos.

A Semana Santa

A Irmandade do S.S.mo que dispunha de meios e auxiliada pelos paroquianos abastados fazia sempre as solenidades da Semana Santa para o que convidava, além do clero da freguesia e do pároco do Roxo, dois frades franciscanos do Convento de Messejana. Faziam a bênção e a procissão dos Ramos, a Missa, desnudação dos altares, exposição do SS.mo no trono e o Lava-pés, na Quinta-feira; na Sexta a Missa, Adoração da Cruz e procissão do Enterro do Senhor, e no Sábado, a Aleluia.
Na 5ª e 6ª feira, havia, à noite, os ofícios solenes e no Domingo de Páscoa, a Missa Pascal com a respectiva procissão e sermão. Na Quinta-feira havia o sermão do Mandato e na Sexta o sermão da Soledade. Nesta procissão (do enterro) era conduzida a imagem do Senhor Morto e da Senhora da Soledade. Iam no cortejo a Verónica e os irmãos da Misericórdia, com as suas opas negras, empunhando uma tocha de cera. À frente do cortejo ia o porteiro da Misericórdia, com a matraca. Incorporavam-se nesta procissão os juízes, os oficiais da Câmara, com o seu escrivão, o notário. Enfim, todos os que desempenhavam cargos públicos. O esquife ia debaixo de um pálio roxo e à frente, após o porteiro da Misericórdia, seguia a bandeira desta e o guião das Almas.
As várias procissões que aqui se realizaram no lapso de 30 anos, de 1908 a 1935, salientaram-se sempre pela boa ordem e pelo cuidado, asseio e imponência com que tudo e todos se apresentavam, sendo sempre admirados com prazer e respeito pelos paroquianos e pelos forasteiros que as presenciavam. A última procissão realizou-se em 1935, fazendo-se também a comunhão solene das crianças que se incorporaram, levando a sua bandeira, com o andor de Nª Srª do Carmo. Foi um número sensacional, aqui desconhecido, que não só agradou mas chegou a entusiasmar pela forma como foi apresentado.
Estas solenidades eram sempre acompanhadas por música que, nos primeiros anos, era a filarmónica de Santa Luzia. Nos últimos anos vinham as filarmónicas de Grândola ou de Alcácer.

Barrigotos de Alvalade

São Martinho dos mancebos
E Panoias bizarria
Garvão é terra de negros
Messejana, gravidade
Para falar com cortesia
Barrigotos de Alvalade

Esta sextilha era cantada nos bailes populares há 50 anos (actualmente mais de 100) e muitas vezes recitada em tom zombeteiro aos habitantes de Alvalade. Actualmente é pouco conhecida. Separa esta sextilha, cinco freguesias das quinze que compõem o Campo de Ourique e nelas põe um cunho que as distingue. Salienta as qualidades dos mancebos de S. Martinho das Amoreiras, nota a bizarria dos habitantes da Panoias, avulta a tez morena das gentes de Garvão, distingue o ar grave dos naturais de Messejana e põe em foco a cortesia dos barrigotos de Alvalade. Destaca-os pela cortesia mas chama-lhes barrigotos… Não irei explicar a cortesia antiga, porque não a conheci, nem a de hoje que pouca é.
O epíteto “Barrigotos” provém do seguinte: no final do século XIX e princípios do século XX, muitos habitantes de Alvalade tinham o ventre demasiado volumoso. As crianças eram notavelmente deformadas, ventrudas, e poucas escapavam. Diziam os médicos que o baço adquiria grande volume devido ao facto seguinte: junto à vila, pelo lado Norte, havia uma depressão grande no terreno e nela, um pego chamado “Pego Verde”, devido à sua vegetação constante de cor verde. Tinha várias nascentes, motivo porque nunca secava. Corriam para ali as águas que lavavam as ruas da vila, eram lançadas as dejecções e animais mortos, de modo que se convertia num terrível foco de infecção aonde proliferavam miríades de mosquitos que posteriormente transmitiam aos habitantes a malária com as suas piores manifestações e consequências. Só mais tarde, depois de dado o sinal de alarme, e de convencidos, se resolveram, os alvaladenses, a entulhar o pego, suprimindo assim a razão do seu barrigotismo…



Fauna de Alvalade

Animais domésticos: Boi, Burro, Cabra, Cavalo, Muar, Ovelha, Porco, Cão, Gato, Galinha, Ganso, Pato, Peru e Pombo.
Caça grossa e miúda:Coelho, Gato bravo, Gineto, Javali, Lebre, Liberno, Lobo, Lontra, Raposa e Texugo.
Aves indígenas e emigrantes: Abetarda, Abibes, Águias, Alvéloas, Andorinhas, Becuinhas (?), Corvos, Corvatos, Codornizes, Cotovias, Corujas, Cucos, Chapins, Calhandras, Cegonhas, Estorninhos, Felosas, Gaios, Gaviões, Gralhas, Garças, Galinhas de água, Galinholas, Milhafres, Milharucos, Melros, Pegas, Peneireiros, Patos, Pavões, Papa-figos, Poupas, Pardais de telhado, Perdizes, Paspalhões, Pintassilgos, Pombos, Rouxinóis, Rolas, Rabilongos, Toutinegras
Peixes do Sado: Barbos, Bordalos, Pardelhas. No Sado, junto dos Coitinhos e Zambujeira, há moluscos de água doce semelhantes aos mexilhões.
Outros: Cágados, Rãs, Sapos, Cobras, Víboras, Lagartos, Lagartixas, Salamandras, Lariões, Ratos, Doninhas, ToupeirasAbelha, Atabão, Besouro, Borboleta, Escaravelho, Mosca, Moscardo, Mosquito culex, Mosquito anofele, Vespa, Lacrau ou escorpião, Licranço (cobra-de-vidro), Centopeia, Tarântula, Aranhas, Aranhas de galeria, Carraça, Percevejo, Piolho, Pulga, Lombriga, Oxiúro e Ténia.

Animais de engorda

É aqui criado em abundância o gado vacum que, além de servir para os trabalhos da lavoura, abastece de boa carne os talhos do país. Também aqui são criados, em abundância, para consumo alimentar, o gado caprino, ovino, e lanígero, dando este boa lã e lacticínios.
O gado suíno é exportado em grandes varas para os mercados de consumo, depois de convenientemente engordado nos montados, com a lande e bolêta dos sobreiros e azinheiras. O pastor encarregado dos rebanhos chama-se “maioral”: o maioral dos bois e o maioral dos porcos, das ovelhas e das cabras. Costumava o maioral ter um auxiliar: o ajuda. O maioral – o pastor -, usa um cajado, de volta, especie de báculo; o dos bois usa a calheira, cajado curto, com uma volta grossa e pesado, que, de longe, atiram aos bois, para os guiarem. O maioral dos porcos – o porqueiro -, usa, presentemente de um chicote de correia comprida; no Inverno, os maiorais usam de chapéu largo, de safões e pelico ou manta de lã, aberta ao meio e que enfiam na cabeça. Aquece-os e poupa-os da chuva.
Como a caça no Baixo Alentejo, rareou muito, usam já, bastante, a engorda de coelhos mansos e também a modalidade de soltarem alguns casais de coelhos mansos, para os grandes montões de lenha, pois proliferam, abundantemente, em plena liberdade, sendo depois mortos a tiro, como coelhos bravos. Escusado será acrescentar que as galinhas, os perús e os patos, são também suculento subsídio para a alimentação.

O Duque da Terceira em Alvalade

Um sol ardente incidia sobre as várzeas e os montados; o ar tremia nas paredes e telhados do casario, o aroma resinoso, acre, das estevas estimulava, ligeiramente, pituitária, e apenas os freixos verdes do Sado e da Ribeira de Campilhas, davam ao quadro um esbatido tom de frescura.
Era a hora da folga. Não se via vivalma. Os almocreves da recova, chagada na véspera, vindos do Sul, e que aqui pernoitaram, tinham saído, de madrugada, antes do romper do sol, a caminho dos Coitos, para não serem detidos, segundo diziam por numerosas forças armadas, que vinham em som de guerra e não deveriam tardar, em direcção à capital, comandadas pelo Conde de Vila Flor. O juramento de fidelidade, prestado pela vereação ao senhor D. Miguel, em 9 de Outubro de 1831, tornava esta vila suspeita.
O que fariam, aqui, as tropas, na sua passagem? Qual o procedimento do intrépido Conde, que vinha à sua frente? Estas interrogações soavam sinistras, temerosas, ao ouvido de todos. Era a hora da folga, mas ninguém folgava… A sombra do estilete, no solarium da Matriz, marcava duas horas. Quase a seguir, soava o sino a vésperas, mas não concluiu, porque o sineiro notando, no ar, grossos rolos de poeira, lá para as bandas do levante, desceu, precipitadamente, as escadas da torre, espavorido, lívido e áfono. E a quem o interrogava, respondia, simplesmente enfiando o indicador para os lados do nascente: Era o exercito que se aproximava e que, pouco depois, atravessando o Sado – então um delgado filete de água – subia pelos lados da Amoreira, fazendo alto nos olivais da Carrasca e S. Sebastião. A infantaria tomou de assalto a Fonte Branca (atual Fonte da Bica, que na altura estaria na encosta onde esteve a antiga linha férrea), a poça da Amoreira (que daria origem à atual Fonte da Estação), e os Poços de Nossa Senhora e da Horta do Pego Verde, e os cavalos foram dessedentar-se nos pegos do Sado e de Campilhas. O calor era asfixiante. Passada meia hora, pela Rua das Areias, entrava em Alvalade, um esquadrão de cavalaria e uma força de caçadores, destacados do grosso do exercito, levando à sua frente, o valente Conde Vila Flor, com o seu estado-maior, caminhando, todos, ao som dos clarins.E as mães que o som terrível escutaram, ao peito os filhos apertaram. O que iria suceder? Que drama iria desenrolar-se, antes os olhos atemorizados da povoação? Chegados à Praça, postaram-se em frente dos Paços do Concelho, apeando-se o Conde e alguns oficiais, subindo ao primeiro andar. Vibrou, nervosamente, o sino da Câmara, para reunir a vereação. Não se fizeram esperar os edis e as autoridades locais. Quais os argumentos jurídicos e que dialéctica empregou o Conde para convencer os circunstantes a aclamar a Senhora D. Maria II, não sabemos. Um argumento forte e de peso estava à vista: era a espada gloriosa que cingia, e, defronte os infantes, apoiados pela cavalaria. O som do comando das suas palavras, o aspecto bélico das tropas convenceram, rapidamente, a Vereação, e o seu presidente não tardou a assomar-se a uma das janelas clamando: “Viva a Senhora D. Maria II”. Os oficiais desembainharam as espadas, os cavaleiros e a infantaria apresentaram armas, e, pela Praça, reboou um grito clamoroso: “Viva a Senhora D. Maria II”. Pouco depois, rebentou a maré,a brisa do Oceano veio refrescar o ambiente. Soou de novo, o clarim, e toda esta enorme massa humana retirou, pela Rua de Lisboa, a caminho da Capital… Foi para comemorar este facto histórico a que se refere o Auto da Vereação de 30 de Agosto de 1833, e em homenagem ao 7º Conde de Vila Flor e 1º Duque da Terceira, D. António José de Sousa Manuel e Meneses Severim de Noronha, que a Junta de Freguesia de Alvalade, em sessão de 1 de Março de 1925, propôs e o Senado Municipal de Santiago do Cacém, por unanimidade aprovou que a Rua das Areias, doravante, se denominasse Rua Duque da Terceira.

Cursos de água e pesca

Esta freguesia é cortada por cursos de água em várias direcções. É atravessada pelo Sado em toda a sua extensão de N.E. a S.E., recebendo este, dentro da sua área, as águas das ribeiras do Carapetal, de Messejana, de Campilhas, do Roxo, de Figueira dos Cavaleiros e de Corona. O Sado não é de corrente contínua. Durante a estiagem a água só se encontrava nos pegos. Estes eram bordejados geralmente por vegetação frondosa, o que permitia durante a estação calmosa, passar junto deles horas agradáveis. Hoje, são já poucos os pegos nestas condições. Apenas restam os de Conqueiros, da Retorta, Defesa e Torre Vã. A vegetação dos outros, que eram bastantes, foi vandalicamente destruída com o pretexto da limpeza que a poucos aproveitou. Seria de grande proveito o repovoamento florestal das margens do Sado com as espécies mais úteis e adaptáveis, não esquecendo os vimeiros, as faias, as canas, ulmeiros, etc. Os proprietários marginais hesitam em fazer tais plantações porque dizendo-lhes as suas escrituras que a propriedade confina com a ribeira, têm por vezes sido incomodados quando ali pretendem exercer o direito de propriedade. Este conflito deveria terminar pela conveniente demarcação. A silvicultura nacional plantaria o que lhe coubesse e os particulares fariam outro tanto. Os guarda-rios serviriam para o caso. Em tempos idos o Sado era, como os seus afluentes, muito piscoso. As espécies que ali ainda se encontram são: Bordalos, pardelhas e barbos. Raras vezes aparecem as eirozes. Há também moluscos bivalves, parecidos com os mexilhões, a que os pescadores chamam amêijoa, mas não se aproveitam. Os peixes são aqui perseguidos pelos cágados, pelas lontras e pelas cobrilhas. Dizem os pescadores que algumas vezes as raposas devoram o peixe colhido. As artes de pesca nesta região são: o tresmalho – rede comprida com bóias de cortiça de um lado e de outro e bóias de chumbo; o galrito – rede afunilada assente em aro de vime; a cana com linha e anzol. Para transpor os pegos mais fundos e para assentamento e fixação das redes, usam os pescadores uns pequenos barcos que movem e dirigem com uma vara. Chamam-lhes chatas ou bateiras e comportam apenas duas ou três pessoas. As artes de pesca são armadas ao pôr-do-sol e colhidas na manhã seguinte.  A pesca, em antigos tempos, era feita em toda a extensão do Sado e seus afluentes que a permitiam. Hoje, somente é feita a montante da confluência da Ribeira do Roxo, devido ao inquinamento das águas provenientes das lavagens do minério das minas de Aljustrel que não só matou a fauna da ribeira mas também a flora que a bordejava. As minas do Lousal que também despejam as suas águas no Sado, mais a jusante, tornam a pesca impossível por ausência completa de peixe até as proximidades de Alcácer do Sal, onde já é sensível a acção das marés. Os indivíduos que se dedicam a esta actividade da pesca colhem o bastante para se manterem com o produto da venda, pois o peixe é saboroso feito de caldeirada ou mesmo frito. Estes inquinamentos poderiam evitar-se ou corrigir-se usando alguns metros cúbicos de areia – e há por aí tanta! – que serviria de filtro. Segundo a tradição, a ribeira do Roxo era o flumen roseum dos Romanos, que se revestia de floração rósea – o loendro roseum – que lhe dava um formoso aspecto.

As Feiras

A primeira é tradicional e tem a sua origem no grande ajuntamento de gado que aqui vinha no dia da Festa de S. Marcos, a fim de receber a bênção que costumava ser lançada nessa ocasião, junto à imagem do santo evangelista.
Chegou a ser importante pela grande afluência de gado e avultado número de transacções, e também pelo aparecimento de artigos diversos que tinham largo consumo como calçado, panos, ourivesaria, louças de barro e esmaltadas, latoaria, maleiros, madeira serrada e trabalhada, quinquilharias, jogos, circos, teatro, cinema, barracas de comida e numerosas tabernas com o regional petisco de bacalhau albardado, que consiste num fragmento de bacalhau coberto de massa de farinha de trigo, frito em azeite.
Quando os anos agrícolas prometem e se fazem boas transações de gado, o restante comércio dos feirantes é animado. No caso contrário, pouco se vende. Actualmente, com a facilidade de comunicações e com a abundância de estabelecimentos bem fornecidos, as feiras vão declinando de importância, pois os marchantes-negociantes de gado vão entender-se directamente com os criadores, às herdades. Como esta feira é realizada em quadra de ano pouco favorável, criou-se outra feira, já no Verão, após as colheitas, que também como a primeira sofre as contingências dos anos agrícolas. A Feira de Abril é interessante porque, estando o campo todo semeado, o gado, carros, cavaleiros e peões, todos desfilam pelos caminhos que dão acesso à vila, dando assim azo a um cortejo magnífico que encanta pela variedade.
A entrada e a retirada são espectáculos dignos de se ver. A feira de Verão não tem esse interesse, pois tudo e todos entram por onde querem, havendo grande dispersão. O local da feira era incerto mas, ultimamente, localizou-se nos terrenos e olivais entre a vila e a Estação dos Caminhos de Ferro. As feiras desta região não têm apenas o sentido comercial, mas também social, pois servem para ponto de reunião de pessoas de lugares distantes que aproveitam esta ocasião para se verem. 

O Enterrador

Em 30 de Novembro de 1930, faleceu, em Alvalade, com 75 anos, Francisco Sobral, um dos tipos mais curiosos que por aqui têm passado. Exerceu o mister de coveiro por espaço de bons 15 anos. Era um alcoólico incorrigível e o espinho agudo de todas as Juntas de Paróquia (actuais juntas de freguesia), que tiveram de o suportar.
Tipo elevado, espadaúdo, olhos azuis, sempre mal enroupado e algumas vezes descalço. Era curioso ver que quando ele entrava e se demorava em alguma taberna, os fregueses começavam a sair, e copo por onde ele bebesse era marcado e ninguém lhe pegava, quando não acontecia ser partido. Era o desmancha-prazeres. Uma vez embriagado, em qualquer ponto de rua ou do campo, se deitava. E muita sorte tinha quando o Regedor ou o Cabo da Guarda, o metiam na cadeia.
Por bastantes vezes a Junta em sessão, o chamou para o repreender pelo abuso do vinho, pela linguagem desbragada ou pela sua apresentação miserável. Ouvia silencioso, mas de vez em quando, soprava. Terminada a reprimenda ia buscar a enxada, a pá e o picarete do cemitério, entrava na sala e dizia: “Agora, enterrem vocês”. E, como ninguém queria tal encargo, a Junta deixou de o repreender, para não ter de o chamar novamente.
No dia 1 de cada mês, o tesoureiro já sabia que apanhava escovadela grossa do Sobral, que ia “buscar o mês”. Usava ele e abusava de tal vocabulário, ora vesicante, ora drástico, que o encargo do seu pagamento foi transitando de uns para outros, à medida que se iam saturando de tão importuna visita. Não sei porquê, também me chegou a vez, mas nunca na minha presença, fez uso de tão celebrado vocabulário.
Tratava-me por “Senhor Calros” não sei porquê, nem lho perguntei. Notei que, na primeira vez, que lhe entreguei “o mês” como ele dizia, não estava embriagado, o que já não sucedeu na vez seguinte. Entreguei-lhe o ordenado, mas fui-lhe dizendo que não deveria aparecer-me naquele estado, sob pena de lhe não pagar.
- “Mas, olhe lá, senhor Calros, como é que uma pessoa há-de abrir uns covões, tão fundos, numa terra tão rija, sem ter espírito”.
- “Mas, você bem vê que parece mal aparecer nesse estado, por ocasião dos enterramentos. Já o tesoureiro me disse que saiu de lá envergonhado com o triste papel que você estava fazendo”.
- “Então esse mariola diz isso? Pois eu não o tenho visto, tantas vezes, dar beijos na preta, e dá-lhe cada um, que a emborca”.
- “Além disso dizem-me também que você falta ao respeito aos cadáveres que enterra – “Patifes” e que, no enterro de F…você foi grosseiro…”.
- “Grosseiros são eles. Que grande canalha! Eu não os trato mal, converso com eles e desse senhor, o que fiz foi despedir-me dele, e dar-lhe os agradecimentos por um favor que me fez… Passei lá pela Herdade, num Inverno, e apanhei um feixinho de lenha para me aquecer à noite. Sabe o senhor Calros, o que ele me fez? Obrigou-me a largá-lo. Então eu não lho devia agradecer? Ora, essa é boa”.
- “Mas essas coisas não são para tais ocasiões. Não beba. Deixe-se disso”.
- “Mas ó senhor Calros, o senhor não gosta de vinho?”
- “Gosto, sim, mas bebo-o com conta peso e medida”.
- “Apoiado”.
- “Até faço mais, misturo-o com água”.
- “Asneira”.
- “Asneira porquê?”
- “Asneira porque estraga a água e estraga o vinho”.

Quando havia enterro de pessoa grada e grande acompanhamento, já se sabia que o Sobral tinha o rabecão afinado para cantar a ária da “canalha dos ricos”, como ele dizia. Tinha seu chiste às vezes. Apareceu-me, numa ocasião, muito enrolado na manta, com má cor, a buscar o mês.
- “Você está doente?”
- “Tenho para aqui umas febres de má raça, que me não largam”.
- “Vá ao médico e trate-se, homem”.
- “Não quero nada com eles, eu bem sei o que eles para lá me mandam. Médicos, só conheci um que era daqui (apertão na orelha). Era o Dr. Carneiro, que já lá está. Aquilo é que era um home que tratava bem a gente, e amigo de reinar… mas numa ocasião saiu-lhe o gado mosqueiro… Eu tinha estado doente, e fui à consulta para ele me dar alta. Estava lá uma rapariga esperando. Quando lhe chegou a vez, foi: “Então a menina de onde é? – Sou do Cercal. Aonde mora? – Na Cabeça da Cabra”. O Doutor que era reinadio, perguntou-lhe: – “A menina sabe o que as cabras têm na cabeça?” – “Sei sim, senhor Doutor, é o mesmo que têm os carneiros”.
“Ó senhor Calros, aquilo é que foi rir! Um deles até fugiu para a rua, para se rir mais à vontade”. Nesse dia, o amigo do Dr. Carneiro não quis mais reinação… Coitado! Também lhe chegou a vez, e, provavelmente, lá está conversando com os companheiros como ele costumava dizer.

A debulha

A debulha das favas é feita à pata, isto é, com o pé dos animais que percorrem a eira, constantemente, em todas as direcções, até a semente estar separada da bainha. Quando tal sucede, é tudo levantado com forquilhas, ficando no solo da eira a semente e a moinha que é levada pelo vento após o padejo feito pelos homens, com pás de madeira. Desta forma, a semente cai a prumo e a moinha vai para o lado oposto ao vento. Junta-se a semente com vassouras de giesta, grossas, procedendo-se seguidamente à medição pelo decalitro – a deca – e depois o ensacamento. Ensacada, coloca-se a um dos lados da eira até que os carros venham para fazer a sua condução para o celeiro.
Hoje, usa-se muito o trilho que simplifica e abrevia bastante este trabalho. Compõe-se o trilho de três cilindros de madeira metidos num rectângulo de ferro, tendo cada cilindro várias carreiras de pequenas pás ou espátulas, também de ferro, que servem para triturar a palha das bainhas, com a sua constante rotação obtida pela tracção do animal ou parelha que o puxa. Sobre o trilho está montada uma cadeira sobre a qual o condutor vai guiando os animais que o puxam. Por esta forma se debulha também o trigo e outros cereais. Actualmente, com a divulgação das máquinas debulhadoras a vapor ou a gasóleo por meio de tractor, a debulha é feita com estes poderosos e rápidos instrumentos.
A palha das favas é aproveitada para alimento do gado muar e cavalar durante o Inverno. É enfardada como a do trigo, da aveia e do milho, com prensas braçais ou à máquina, e uma é conduzida aos palheiros em grandes redes armadas sobre os carros, outra é empilhada em grandes serras que são cobertas com bunho que as resguarda da acção das chuvas. É dali depois retirada para o consumo. O centeio é debulhado com manguais (malhos) ficando a palha inteira, servindo depois para colchoaria e albardeiros. O milho é também debulhado com os manguais, depois de descamisado e posto a secar na eira. Acabada a malha, é padejado ao vento que faz a limpeza.
Hoje há uns descaroladores mecânicos que por um movimento rotativo entregam o milho limpo. A palha das camisas ou maçarocas é muito usada para colchoaria, assim como a de aveia por ser fresca. As bandeiras das caneiras do milho são utilizadas como forragem para o gado vacum.